Colapso silencioso: 81% dos peixes migratórios de água doce desapareceram desde 1970

Um novo relatório global lançado em Março na cimeira CMS COP15 no Brasil confirma uma crise de biodiversidade que se agrava nas margens invisíveis dos rios. Salmões, enguias e esturjões estão em colapso. E com eles, a segurança alimentar e os meios de vida de centenas de milhões de pessoas.

O que são peixes migratórios e porque importam

Ao contrário do que o nome pode sugerir, a crise dos peixes migratórios de água doce não é um problema de especialistas em biologia aquática. É uma questão de alimentação, de água, de funcionamento dos ecossistemas e de economia. Espécies como salmões, enguias, esturjões, trutas e diversas espécies de bagres executam migrações entre zonas de reprodução, alimentação e crescimento – frequentemente ao longo de centenas ou milhares de quilómetros, atravessando fronteiras de múltiplos países.

Essas migrações cumprem funções ecossistémicas insubstituíveis: transportam nutrientes, sustentam cadeias alimentares complexas, regulam populações de presas e garantem a conectividade dos sistemas fluviais. E sustentam diretamente as economias e a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas, sobretudo em África, Ásia e América Latina, onde as pescas interiores são uma fonte de proteína e rendimento essencial.

O que o relatório revela

O relatório ‘Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes’, lançado no âmbito da 15.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS COP15), realizada em Campo Grande, Brasil, em março de 2026, é a avaliação mais abrangente jamais realizada sobre estas espécies. Com base em dados de quase 15.000 espécies de peixes de água doce, identifica um colapso sem precedentes.

Desde 1970, as populações de peixes migratórios de água doce declinaram em média 81% a nível global. Nas espécies de maior dimensão – como os grandes esturjões, os maiores peixes de água doce do mundo – o declínio atinge os 94%. Das 58 espécies de peixes migratórios já listadas sob a Convenção, 97% estão ameaçadas de extinção. O relatório identifica ainda 325 espécies adicionais como candidatas a proteção internacional urgente.

Muitas das grandes migrações de vida selvagem do mundo acontecem debaixo de água. Esta avaliação mostra que os peixes migratórios de água doce estão em sério perigo. – Dr. Zeb Hogan, autor principal do relatório

As causas de um colapso anunciado

As causas identificadas pelo relatório são múltiplas e interligadas. As barragens – que cortam as rotas migratórias e alteram caudais – são o fator de maior impacto: estima-se que metade de todas as ameaças a espécies migratórias deriva da fragmentação de habitats e da degradação das vias de migração. A sobrepesca – incluindo a captura acidental de espécies não-alvo em redes de pesca – a poluição crescente e as pressões da alteração climática completam o quadro.

O relatório sublinha uma dimensão política muitas vezes ignorada: os peixes migratórios atravessam fronteiras, mas as regras que os protegem raramente o fazem. Uma espécie pode estar protegida num país e completamente desprotegida no seguinte, num absurdo regulatório que os torna especialmente vulneráveis à sobrepesca nos seus pontos de maior concentração – as rotas migratórias.

Na Europa, espécies icónicas como o salmão do Atlântico já sofreram declínios de cerca de um quarto desde 2006, devido à poluição, doenças e barreiras nos rios. A indústria global do salmão, avaliada em milhares de milhões de euros, começa a sentir os efeitos desta pressão sobre as populações selvagens.

O que pode ser feito

O relatório identifica soluções concretas e, em vários casos, já testadas com sucesso. A remoção de barragens em rios europeus e norte-americanos demonstrou ser uma intervenção eficaz e custo-eficiente: em 2023, a Europa removeu um record de 487 obstáculos fluviais, 50% acima do máximo anterior. Nos Estados Unidos, as maiores remoções de barragens da história estão em curso no rio Klamath, na Califórnia e Oregon.

Os rios prioritários para ação imediata identificados pelo relatório incluem sistemas maiores: o Amazonas e o La Plata-Paraná na América do Sul, o Danúbio na Europa, o Mekong na Ásia, o Nilo em África e o Ganges-Brahmaputra no subcontinente indiano. A CMS COP15 aprovou também um plano de ação multi-espécies para os bagres migratórios amazónicos (2026-2036), desenvolvido através de cooperação regional.

Reverter o declive nas populações de peixes migratórios levará tempo e nem sempre será simples. Mas valerá a pena. Restaurar os habitats de que dependem beneficiará muitos outros animais e plantas também. – Natural History Museum, Londres

A ligação com as metas globais de biodiversidade

O colapso das populações de peixes migratórios enquadra-se numa crise de biodiversidade de água doce mais ampla. Aquíferos, rios, lagos e zonas húmidas albergam cerca de 10% de todas as espécies conhecidas, numa área que representa menos de 1% da superfície terrestre. São também os ecossistemas que mais rapidamente estão a ser destruídos.

O Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022, estabelece a meta de proteger 30% das águas interiores e restaurar 30% das águas interiores degradadas até 2030. O relatório da CMS é um alerta de que, sem ação coordenada e urgente, estas metas dificilmente serão cumpridas no que diz respeito aos ecossistemas fluviais. A COP17 de Biodiversidade, agendada para Outubro de 2026 em Erevan, na Arménia, será o próximo momento-chave para avaliar o progresso – ou a sua ausência.

Portugal e os peixes migratorios
Portugal tem um papel relevante na conservação de espécies migratórias de água doce europeias, nomeadamente o salmão e a lampreia, espécies com valor ecológico e cultural significativo. A Lei da Água e os planos de gestão de bacias hidrográficas incluem medidas de preservação de caudais ecológicos e conectividade fluvial – áreas onde os avanços têm sido desiguais. O GreenOcean publicará em breve uma análise dedicada à situação dos peixes migratórios nos rios portugueses.

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