O Super El Niño de 2026 pode ser o mais intenso da história – e Portugal está na linha da frente
Os modelos climáticos do ECMWF, da NOAA e do Bureau of Meteorology australiano convergem numa projeção que há semanas vinha a ganhar força e que esta semana se tornou inegável: o El Niño que está a desenvolver-se no Pacífico equatorial em 2026 está em trajetória para se tornar o evento mais intenso de que há registo moderno, potencialmente superando o histórico de 1877-1878. Para Portugal e para a Península Ibérica, num verão que já chegaria quente por si só, a conjugação do Super El Niño com o enfraquecimento da AMOC e com o aquecimento de fundo das alterações climáticas cria um cenário de pressão climática sem precedente.
O El Niño é um fenómeno climático periódico que ocorre quando as temperaturas da superfície do oceano Pacífico equatorial sobem significativamente acima da média, perturbando os padrões de circulação atmosférica global. Um El Niño normal corresponde a anomalias de temperatura na região Niño3.4 entre +0,5 e +1,5 graus Celsius. Um El Niño forte ultrapassa +1,5 graus. Um Super El Niño – a classificação aplicada aos eventos de maior intensidade – supera o limiar de +2,0 graus. Os últimos três eventos deste nível foram os de 2015-2016, 1997-1998 e 1982-1983, todos com impactos climáticos significativos à escala global.
O evento que está agora a desenvolver-se é diferente por três razões. A primeira é a velocidade de desenvolvimento: a transição da fase La Niña para um El Niño de intensidade potencialmente histórica está a acontecer mais rapidamente do que qualquer um dos eventos anteriores, impulsionada por uma onda oceânica de Kelvin de excecional energia que está a transportar calor subsuperficial para as águas do Pacífico oriental. A segunda é a magnitude projetada: as previsões do ECMWF apontam para anomalias a atingir +4,5 graus Celsius nas regiões orientais da área ENSO no pico do evento, no outono-inverno de 2026-2027 – um valor sem precedente nos registos instrumentais. A terceira é o ponto de partida: este El Niño desenvolve-se sobre um oceano global que já está, em 2026, nas segundas temperaturas superficiais mais altas de sempre, segundo o boletim de abril do Serviço Copernicus.
As análises do meteorologista Andrej Flis, da plataforma Severe Weather Europe, publicadas a 7 de maio com base nos dados ensemble do ECMWF e da NOAA, descrevem o cenário como um alerta atmosférico de nível vermelho: o evento em curso tem o potencial de redefinir os padrões climáticos sazonais até 2027, com a reorganização da corrente de jato global a começar a fazer-se sentir já no verão de 2026.
O que os modelos dizem sobre a Europa e o Mediterrâneo
A influência do El Niño sobre a Europa é menos direta do que sobre as Américas ou a Ásia-Pacífico – o continente europeu está mais afastado da fonte do fenómeno e a sua resposta climática é filtrada por múltiplos fatores, incluindo a posição da corrente de jato, os padrões de pressão do Atlântico Norte e, em 2026, o enfraquecimento da AMOC. Mas os dados históricos dos Super El Niños anteriores e as projeções sazonais para 2026 convergem em algumas tendências robustas.
Para o verão de 2026, os modelos ECMWF apontam para temperaturas acima do normal em praticamente todo o continente europeu, com o sinal mais forte no Sul e no Mediterrâneo. A precipitação mostra um padrão mais complexo: mais chuva do que o normal no sul da Europa e na bacia mediterrânica durante alguns períodos, alternando com episódios de calor e seca intensos. O risco de seca é projetado como especialmente elevado na Europa central e no corredor norte-central, onde temperaturas acima da média combinam com precipitação abaixo da média.
O relatório da CNN Climate publicado a 12 de maio cita o meteorologista Jeff Berardelli sobre os impactos europeus: o excesso de calor trazido à superfície pelo El Niño, combinado com o aquecimento de fundo das alterações climáticas, criará condições para temperaturas globais recorde – possivelmente em 2026, possivelmente em 2027, possivelmente em ambos. A Euronews, na sua análise de 12 de maio sobre o Super El Niño em desenvolvimento, destacou a intensidade de calor projetada para a Espanha e para o Mediterrâneo como o impacto europeu de maior probabilidade no curto prazo.
Para a época de furacões do Atlântico, o El Niño tem tipicamente um efeito supressor – o excesso de energia no Pacífico compete com o Atlântico, reduzindo a formação de tempestades tropicais na bacia atlântica. Mas esta supressão não elimina o risco para Portugal e para as ilhas atlânticas: os sistemas que se formam podem ser menos numerosos, mas não necessariamente menos intensos.
Portugal no centro do impacto: seca, incêndios e agricultura sob pressão
Portugal está geograficamente posicionado numa das regiões europeias onde o impacto do Super El Niño combinar-se-á de forma mais adversa com as tendências estruturais já em curso. O país enfrenta uma trajetória de aridificação progressiva no interior e no Sul, documentada nos relatórios da Agência Portuguesa do Ambiente e nos cenários climáticos do IPMA. A seca de 2022, que afetou mais de 90% do território continental, e os incêndios florestais que ceifaram vidas e destruíram dezenas de milhares de hectares nos últimos anos são expressões recentes dessa vulnerabilidade.
Um verão de 2026 marcado por calor excecional e precipitação abaixo do normal – o padrão apontado pelos modelos para o Mediterrâneo ocidental – chegaria num contexto em que as reservas hídricas já estão sob pressão crescente e em que a temporada de incêndios de 2026 está a ser antecipada como de risco elevado. A nova estratégia europeia de gestão do risco de incêndios, apresentada em março de 2026, previu precisamente este contexto – e os meios aéreos rescEU que Portugal vai receber foram concebidos para dar resposta a épocas de incêndio cada vez mais intensas e prolongadas.
Para a agricultura portuguesa, o Super El Niño coloca pressões específicas em vários sectores. A olivicultura – onde Portugal é um dos maiores produtores mundiais, com a Sovena e outros grupos a gerir dezenas de milhares de hectares – é particularmente sensível às ondas de calor durante a floração e ao stress hídrico durante o desenvolvimento do fruto. A viticultura, que já tem vindo a adaptar as suas práticas às condições de calor crescente, enfrenta a possibilidade de vindimas com graus de maturação atípicos e maiores necessidades de irrigação. E a produção de cereais de sequeiro no Alentejo – uma das âncoras da segurança alimentar nacional – é diretamente ameaçada por primaveras secas e verões mais quentes.
O alerta do meteorologista Daniel Swain, citado pelo Time Magazine a 10 de abril, resume a escala do que está em preparação: este El Niño, ao combinar-se com o aquecimento global de fundo, vai produzir calor recorde à escala mundial. Para Portugal, um país que já está entre os que aquecem mais rapidamente na Europa segundo os dados Copernicus, esta projeção não é um cenário distante. É o verão de 2026.
Intersecção com a AMOC: dois sistemas em simultâneo
O Super El Niño de 2026 não chega isolado. Como o GreenOcean noticiou há dias, um estudo publicado em Science Advances a 10 de maio documentou o enfraquecimento consistente da AMOC – a grande corrente de revolvimento do Atlântico – ao longo de quase duas décadas. A AMOC e o El Niño são sistemas climáticos distintos, com mecanismos e escalas temporais diferentes. Mas a sua interação num mesmo período temporal cria uma complexidade que os modelos climáticos convencionais têm dificuldade em capturar completamente.
O enfraquecimento da AMOC tende a reduzir o transporte de calor tropical para o Atlântico Norte e a alterar os padrões da corrente de jato europeia – podendo reforçar ou modificar os impactos do El Niño sobre o continente. Nalguns cenários, esta interação pode resultar em padrões de precipitação ainda mais atípicos e em episódios de calor mais persistentes do que o El Niño produziria sozinho. A incerteza é genuína – mas a direção geral do sinal climático para o verão de 2026 em Portugal é clara: mais quente, potencialmente mais seco, com risco de eventos extremos acima do normal.
A mensagem para os decisores políticos, para os gestores de recursos hídricos e para os agricultores portugueses não é de pânico, mas de preparação. Os sistemas de alerta precoce, os planos de contingência para secas e incêndios, os programas de eficiência hídrica na agricultura e os mecanismos de apoio aos sectores mais expostos precisam de estar ativados antes do verão – não durante. O Super El Niño de 2026 não é uma surpresa científica: é um aviso com antecedência suficiente para agir.
Fonte: Severe Weather Europe / ECMWF / Euronews / CNN Climate / Time Magazine / Copernicus

