Crise silenciosa dos rios: peixes migradores perderam 81% das populações desde 1970
Um relatório histórico apresentado na COP15 da Convenção sobre Espécies Migradoras, no Brasil, revela o colapso dramático das migrações de água doce. O Danúbio, o Mekong, o Amazonas – e até os rios portugueses – enfrentam um desafio sem precedentes.
O que diz o relatório
A 24 de marco de 2026, durante a 15.a Conferencia das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Espécies Migradoras (CMS COP15), em Campo Grande, Brasil, foi divulgada a mais abrangente avaliação alguma vez feita sobre peixes migradores de água doce. Os resultados são alarmantes: as populações destas espécies registaram uma queda media de 81% desde 1970, num colapso que a própria ONU classifica como uma das maiores crises de biodiversidade documentadas na história recente.
O relatório – Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes – analisou cerca de 15.000 espécies de peixes de água doce, mais do que cinco vezes o número coberto pela avaliação anterior, publicada em 2011. A equipa de investigadores, liderada pelo biólogo Zeb Hogan da Universidade de Nevada, identificou 325 espécies que necessitam urgentemente de ação internacional coordenada, apenas 23 das quais se encontram atualmente listadas ao abrigo da CMS.
O retrato regional e devastador. Na América Latina e Caribe, o declínio chega aos 91%. Na Europa, 75% das populações de peixes migradores desapareceram em cinco décadas. 97% das 58 espécies já listadas pela CMS enfrentam risco de extinção.
Fonte: CMS – Convention on the Conservation of Migratory Species, Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes, marco 2026.
Causas: barragens, poluição e clima
A principal causa identificada é a fragmentação dos rios provocada pela construção de barragens. Os peixes migradores dependem de corredores fluviais ininterruptos, que ligam zonas de desova, alimentação e crescimento, muitas vezes atravessando vários países. Quando esses percursos são bloqueados, as populações colapsam rapidamente. Michele Thieme, cientista do WWF, sintetizou o problema: os rios não reconhecem fronteiras, e os peixes que deles dependem também não.
A fragmentação dos habitats é responsável por cerca de metade das ameaças identificadas no relatório. A poluição, a sobrepesca e as alterações climáticas completam o quadro. Em particular, as mudanças climáticas estão a alterar os regimes de caudal e a temperatura dos rios, perturbando os ciclos de reprodução e migração que as espécies desenvolveram ao longo de milénios.
A dimensão económica do problema e também significativa. O mercado global de peixes de água doce deve atingir os 211 mil milhões de dólares em 2026, segundo a Mordor Intelligence. Mas mais relevante ainda é o facto de as espécies migratórias sustentarem a segurança alimentar de cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, particularmente em comunidades vulneráveis de África, Ásia e América Latina.
A dimensão europeia: o Danúbio como caso emblemático
Na Europa, o Danúbio e identificado como um dos sistemas fluviais prioritários. O rio atravessa 10 países e alberga uma das maiores diversidades de espécies de água doce do continente, mas décadas de construção de barragens e de poluição reduziram drasticamente as suas populações de esturjão, salmão e outros peixes migradores. A Agência Europeia do Ambiente (AEA) tem alertado reiteradamente para o estado ecológico deteriorado de muitos rios europeus, com apenas 40% das massas de água da UE a atingir o bom estado ecológico exigido pela Diretiva Quadro da Água.
A nova avaliação surge num momento em que a Comissão Europeia prepara o Ato da Economia Circular e o Quadro Europeu Integrado de Resiliência Climática, ambos anunciados no programa de trabalho para 2026. O Conselho da UE adotou em dezembro de 2025 conclusões que apelam explicitamente a uma abordagem de ‘resiliência climática por desenho’, com enfase nas soluções baseadas na natureza – precisamente o tipo de intervenções que mais beneficiam os ecossistemas aquáticos.
Fonte: Agência Europeia do Ambiente, Diretiva Quadro da Água (2000/60/CE); Conselho da UE, Conclusões sobre o Ambiente, dezembro 2025.
E em Portugal?
Portugal não esta imune a esta crise global. O país abriga populações de salmão-atlântico (Salmo salar), lampreia (Petromyzon marinus) e savelha (Alosa alosa), todas espécies migradoras em declínio acentuado. A APA – Agência Portuguesa do Ambiente tem desenvolvido planos de gestão de bacias hidrográficas, e o governo concluiu em marco de 2026 cinquenta planos de gestão de áreas protegidas. No entanto, a pressão da seca – que levou o executivo a aumentar os limites de uso de água do Alqueva em janeiro de 2026 – agrava os riscos para os ecossistemas aquáticos.
A ENAAC 2030, a Estratégia Nacional de Adaptação as Alterações Climáticas, identifica a água e os ecossistemas fluviais como sectores prioritários. Mas os especialistas avisam que os efeitos da seca, combinados com a fragmentação dos rios por barragens, criam condições particularmente adversas para as espécies migradoras. O caso português ilustra como os desafios locais e globais se entrelaçam numa crise que não admite respostas fragmentadas.
O que é preciso fazer
O relatório da ONU é claro nas suas recomendações: a conservação dos peixes migradores exige gerir os rios como sistemas conectados, não como recursos nacionais isolados. Isso implica a proteção dos corredores de migração e dos caudais ecológicos, planos de ação transfronteiriços por bacia fluvial, e uma redução drástica das barragens que bloqueiam as rotas migratórias. A proposta de um Plano de Acão Multe Espécies para os Peixes Migradores do Amazonas (2026-2036), apresentada pelo Brasil na COP15, serve de modelo para outras regiões.
A ciência e inequívoca. O que falta é vontade política e financiamento. Para um recurso que sustenta 200 milhões de pessoas e um mercado global de mais de 200 mil milhões de dólares, o investimento em conservação e desproporcionalmente baixo. Como sublinhou Zeb Hogan: muitas das maiores migrações do mundo acontecem debaixo de água, silenciosamente, e é la que o colapso também está a acontecer.
Fonte: Convention on Migratory Species (UN), Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes, marco 2026. World Wildlife Fund (WWF). Circle of Blue.

