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Três milhões de toneladas de vidro por ano: o sector hoteleiro europeu que ainda não aprendeu a reciclar

Dois milhões de restaurantes, bares, hotéis e cafés em toda a Europa e no Reino Unido. Três milhões de toneladas de embalagens de vidro de uso único consumidas e descartadas todos os anos. Uma taxa de reciclagem que fica consistentemente abaixo do seu potencial. E um inimigo improvável que compromete peças inteiras de vidro recolhido: a chávena partida no ecoponto errado. A campanha europeia The Sound of Glass, lancada em janeiro de 2026 pela Close the Glass Loop, veio pôr o dedo numa ferida que o sector da hospitalidade europeia preferia não ver.

Quando se fala de reciclagem de vidro na Europa, a conversa centra-se quase sempre nos consumidores domésticos e nos seus ecopontos de bairro. É compreensível: as famílias europeias são responsáveis por cerca de 80% do vidro de embalagem recolhido para reciclagem. Mas o sector HORECA – hotéis, restaurantes, cafés, bares e outros estabelecimentos de hospitalidade – representa quase 20% do potencial total de reciclagem de vidro europeu e tem recebido uma fração mínima da atenção e dos recursos dedicados a melhorar as taxas de recolha.

Os números têm escala: segundo a Close the Glass Loop, os estabelecimentos HORECA europeus e britânicos consomem e descartam coletivamente cerca de três milhões de toneladas de embalagens de vidro de uso único por ano. Em países com forte componente turística – como Portugal, Espanha, Itália, Grécia e França – a quota do sector no total de vidro gerado é ainda maior, podendo ultrapassar os 25% nos meses de verão em destinos de elevada afluência.

A Close the Glass Loop, a plataforma europeia que reúne toda a cadeia de valor do vidro desde a indústria vidreira até às autarquias e operadores de resíduos, tem vindo a trabalhar com o sector hoteleiro como parte de uma estratégia mais ampla para atingir a meta de 90% de recolha de embalagens de vidro para reciclagem na UE até 2030. A atual taxa média europeia, segundo os dados mais recentes de 2023, situa-se nos 80,8% – insuficiente para cumprir o objetivo a quatro anos de distância.

O problema que ninguém via: vidro e cerâmica no mesmo caixote

A campanha The Sound of Glass, desenvolvida pela Close the Glass Loop em cooperação com a HOTREC (a associação europeia de hotéis, restaurantes e cafés), parte de um problema concreto e frequentemente subestimado: a contaminação do vidro de embalagem com cerâmica e porcelana nos pontos de recolha dos estabelecimentos HORECA.

Para quem trabalha numa cozinha profissional ou num bar movimentado, a distinção entre uma garrafa de vinho vazia e um prato partido pode parecer óbvia. Na prática, porém, a pressão operacional, a falta de formação dos colaboradores e a ausência de sistemas de separação claros levam frequentemente à deposição de cerâmica – pratos, chávenas, copos de cristal, recipientes refratários – nos contentores destinados ao vidro de embalagem.

O impacto no processo de reciclagem é desproporcionado face ao volume de contaminante. O vidro de embalagem é processado em fornalhas que operam a temperaturas entre 1.400 e 1.600 graus Celsius. A porcelana e a cerâmica têm temperaturas de fusão substancialmente mais elevadas e não se incorporam na massa fundida – permanecem como fragmentos sólidos que danificam os equipamentos, comprometem a homogeneidade do vidro produzido e reduzem o valor do material reciclado. Quando a concentração de cerâmica supera os limiares de aceitação das instalações de reciclagem, a partida de vidro pode ser integralmente rejeitada – um desperdício de recursos e de energia que começa, ironicamente, num ecoponto que estava a tentar fazer a coisa certa.

O título da campanha – The Sound of Glass – refere-se precisamente a este problema: o som que uma garrafa faz quando cai no contentor de vidro é diferente do som de um prato partido. A campanha usa esse contraste sonoro como mnemónica para reforçar a mensagem: vidro e cerâmica podem partilhar a mesma mesa, mas não pertencem ao mesmo contentor.

Solução: formação, sistemas e incentivos

A Close the Glass Loop tem desenvolvido, em parceria com as suas 13 plataformas nacionais e com a HOTREC, um conjunto de ferramentas práticas para ajudar os estabelecimentos HORECA a melhorar as suas práticas de separação e recolha de vidro. A campanha foi concebida para ser adaptável a contextos nacionais e regulatórios diferentes – o que é essencial numa Europa onde os sistemas de recolha variam significativamente de país para país.

As recomendações práticas incluem a instalação de contentores diferenciados e claramente identificados nas zonas de trabalho dos estabelecimentos (cozinhas, bares, zonas de copa), a formação regular dos colaboradores sobre os materiais aceites e rejeitados, e a designação de um responsável pela gestão de resíduos em cada estabelecimento. Para cadeias hoteleiras e grupos de restauração com múltiplas unidades, a centralização da gestão de resíduos a nível corporativo tem mostrado resultados significativamente melhores do que a abordagem unidade a unidade.

O estudo Oakdene Hollins, encomendado pela Close the Glass Loop em 2023, forneceu pela primeira vez dados detalhados sobre o mercado HORECA europeu e estimou a quota de produtos embalados em vidro consumidos no canal da hospitalidade – investigação que tem informado o desenvolvimento de soluções mais direcionadas para o sector. O estudo mostrou que em alguns países europeus com forte componente turística, a quota HORECA no total de vidro gerado pode ser substancialmente superior à média europeia de 20%.

Portugal no verão de 2026: o momento certo para esta conversa

Com o verão a aproximar-se e o turismo em Portugal a bater recordes consecutivos, o tema da reciclagem de vidro no sector HORECA tem uma relevância especial. Portugal recebeu em 2025 mais de 30 milhões de turistas internacionais – um número que coloca pressão significativa sobre os sistemas de gestão de resíduos, particularmente nos destinos mais procurados como Lisboa, Porto, o Algarve e as ilhas.

O arranque do sistema Volta em abril de 2026 trouxe uma nova consciência sobre as embalagens de bebidas – mas, como já foi referido, o vidro ficou excluído do mecanismo de depósito e reembolso. Isso significa que a reciclagem de vidro continua a depender inteiramente da qualidade dos sistemas de ecoponto existentes e da adesão voluntária dos consumidores e dos estabelecimentos comerciais. Numa época de verão, em que os volumes de consumo no sector HORECA aumentam significativamente, a diferença entre um sistema de separação bem implementado e um deficiente pode traduzir-se em centenas de toneladas de vidro que chegam ou não chegam ao reciclador em condições de ser incorporadas na produção de novas embalagens.

A campanha The Sound of Glass e o guia de boas práticas para ecopontos publicado em abril chegam a Portugal num momento em que o país tem a oportunidade de dar um salto qualitativo na sua taxa de reciclagem de vidro – sem esperar por alterações regulatórias ou novos investimentos em infraestrutura. A mudança começa na formação de quem trabalha numa cozinha ou num bar: saber distinguir uma garrafa de um prato partido pode ser, literalmente, a diferença entre vidro que volta a ser garrafa e vidro que vai para aterro.

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