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O fim do alumínio nas embalagens de leite e sumo? A inovação da Tetra Pak que pode mudar tudo

Durante décadas, as embalagens assépticas de cartão – as que guardam o leite, o sumo, o tomate triturado – continham uma camada invisível, mas insubstituível: uma fina película de alumínio que protegia o conteúdo da luz, do oxigénio e das bactérias. Agora, a Tetra Pak está a eliminar esse alumínio. A empresa sueca substituiu-o por uma barreira de papel, com 90% de conteúdo renovável e uma redução da pegada de carbono até 50%. Em abril de 2026, chegou o maior teste até agora: a primeira embalagem de um litro com esta tecnologia, produzida em Itália. A história começa em Portugal.

As embalagens assépticas de cartão que utilizamos para conservar leite, sumos, natas ou sopas à temperatura ambiente são compostas por várias camadas de materiais diferentes: tipicamente cerca de 70% de cartão, 25% de polietileno e 5% de alumínio. É a camada de alumínio que torna possível a conservação sem refrigeração durante meses – funciona como uma barreira que impede a passagem de luz, oxigénio e microrganismos, mantendo o produto seguro e estável.

O problema do alumínio é duplo. Do ponto de vista ambiental, a sua produção primária é intensiva em energia e emissões de CO2 – a extração e refinação de bauxite para produzir alumínio virgem é um dos processos industriais com maior pegada de carbono. Do ponto de vista da circularidade, a presença de alumínio numa embalagem predominantemente de papel complica o processo de reciclagem: os três materiais têm de ser separados nas instalações de reciclagem, o que exige infraestruturas específicas e resulta em perdas de material. Em países onde essa infraestrutura não existe, as embalagens de cartão asséptico com alumínio acabam em aterro ou incineração.

Eliminar o alumínio sem comprometer a proteção do produto – mantendo o prazo de validade, a segurança alimentar e o desempenho em linha de produção – era o Santo Graal da indústria de embalagens assépticas. A Tetra Pak passou uma década a trabalhar nesse problema.

A solução: uma barreira de papel verificada pelo Carbon Trust

A tecnologia desenvolvida pela Tetra Pak substitui a camada de alumínio por uma barreira de papel de alta performance – um material que combina múltiplas camadas de fibra com tratamentos específicos para replicar as propriedades de proteção do alumínio contra a luz, o oxigénio e a humidade. Quando combinada com polímeros de base vegetal derivados da cana-de-açúcar, a embalagem resultante atinge até 92% de conteúdo renovável e certifica uma redução da pegada de carbono de 33% a 50% face às embalagens assépticas convencionais com alumínio – valores verificados e certificados pelo Carbon Trust, organização independente especializada em métricas de carbono.

A simplificação da estrutura da embalagem – de três materiais principais (cartão, polietileno, alumínio) para dois (cartão e poliolefinas) – tem também benefícios significativos para a reciclagem. As embalagens com maior conteúdo de papel são mais valorizadas pelas papeleiras, e a ausência do alumínio simplifica o processo de separação nas instalações de triagem, aumentando a quantidade e a qualidade da fibra recuperada.

O prazo de validade e o desempenho de proteção são comparáveis às embalagens convencionais com alumínio. A embalagem pode ser distribuída em condições ambiente, sem necessidade de refrigeração, e é compatível com as linhas de enchimento existentes mediante adaptação – o que significa que os produtores não têm necessariamente de adquirir nova maquinaria.

Da Lactogal para o mundo: uma história com raízes portuguesas

A primeira embalagem asséptica com barreira de papel a chegar ao mercado foi desenvolvida em parceria com a Lactogal, empresa portuguesa de produtos lácteos. Em 2023, a Tetra Pak lançou com a Lactogal a Tetra Brik Aseptic 200 Slim Leaf – uma embalagem de 200 mililitros com 90% de conteúdo renovável e uma redução de 33% na pegada de carbono. Foi a primeira embalagem asséptica deste tipo no mundo, e Portugal foi o mercado onde a inovação foi validada comercialmente.

Desde então, a tecnologia expandiu-se a novos formatos e mercados. Em dezembro de 2025, a Tetra Pak lançou com o grupo espanhol García Carrión a primeira embalagem com barreira de papel para sumos – a Tetra Brik Aseptic 200ml Slim Leaf. Em fevereiro de 2026, a sul-coreana Maeil Dairies adotou a tecnologia para a sua bebida de soja, tornando-se a primeira produtora a implementar a solução em linhas de enchimento de alta velocidade Tetra Pak A3/Speed, com uma redução de 26% na pegada de carbono verificada pelo Carbon Trust.

O marco mais recente chegou a 22 de abril de 2026: a Tetra Pak anunciou, em parceria com a empresa italiana de laticínios Sterilgarda Alimenti, a primeira embalagem de um litro com barreira de papel – a Tetra Brik Aseptic 1000 Edge, um dos formatos mais vendidos da empresa a nível mundial, reconhecível pelo seu painel superior inclinado. Com 90% de conteúdo renovável e uma redução da pegada de carbono de até 50% verificada pelo Carbon Trust, é o passo mais significativo até agora na transição da embalagem asséptica para materiais de base renovável.

Investimento de 60 milhões de euros e o horizonte de 2027

Para escalar industrialmente esta tecnologia, a Tetra Pak anunciou em janeiro de 2026 um investimento de 60 milhões de euros numa nova instalação piloto para o desenvolvimento de embalagens com barreira de papel na sua sede em Lund, na Suécia. A instalação, com início de operações previsto para o primeiro trimestre de 2027, faz parte de um compromisso de investimento de aproximadamente 100 milhões de euros por ano até 2030 no desenvolvimento de soluções de embalagem sustentáveis.

O objetivo declarado é tornar a barreira de papel acessível a um número crescente de clientes e acelerar a transição para materiais de embalagem mais renováveis a nível global. A escala industrial é o desafio central: o que foi validado comercialmente em formatos pequenos e em mercados específicos precisa de ser replicado em dezenas de formatos, em centenas de mercados, em linhas de produção que funcionam a velocidades de dezenas de milhares de embalagens por hora.

Tatiana Liceti, vice-presidente executiva de Soluções de Embalagem da Tetra Pak, foi direta na avaliação do momento: a sustentabilidade ambiental continua a moldar a indústria alimentar e de bebidas, e esta inovação é um passo importante para ajudar os produtores a aproximarem-se dos seus objetivos ambientais. A mensagem subjacente é clara: a embalagem asséptica sustentável de grande escala já não é uma ambição futura. É uma realidade presente. E para a indústria alimentar portuguesa – que tem na Lactogal um dos pioneiros desta transição – o sinal é de que a janela de vantagem competitiva está aberta, mas não vai ficar aberta indefinidamente.

O que muda para os consumidores – e para a indústria

Para os consumidores, a transição para embalagens com barreira de papel é, na prática, invisível: o produto tem a mesma aparência, o mesmo prazo de validade, o mesmo desempenho. A diferença está nos materiais – e na pegada de carbono que não se vê, mas que existe. A investigação da própria Tetra Pak indica que 31% dos consumidores estariam mais motivados a separar para reciclagem se as embalagens fossem feitas inteiramente de cartão – o que sugere que a simplificação dos materiais tem também um potencial de impacto comportamental.

Para a indústria alimentar, a transição coloca questões práticas de adaptação de linhas de produção, de custo de materiais e de certificação. A Tetra Pak tem procurado minimizar o investimento necessário: a solução é compatível com linhas de enchimento existentes mediante a instalação de um sistema de selagem por indução de alta frequência, sem necessidade de investimento de capital significativo. A certificação independente pelo Carbon Trust funciona como sinal de credibilidade para os produtores que querem comunicar as suas credenciais ambientais sem risco de greenwashing.

A pressão regulatória europeia – do Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis ao Passaporte Digital do Produto, passando pela Diretiva Green Claims – vai tornar progressivamente mais difícil para os produtores de alimentos e bebidas ignorar a pegada de carbono das suas embalagens. A barreira de papel da Tetra Pak posiciona-se precisamente nessa interseção entre inovação tecnológica e antecipação regulatória. E Portugal, onde a história começou com a Lactogal em 2023, tem uma posição de partida privilegiada nesta transição.

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