Biodiversidade – um milhão de espécies em risco: a crise silenciosa que decide o nosso futuro
Dia Internacional da Biodiversidade
Três quartos do ambiente terrestre e dois terços do ambiente marinho foram significativamente alterados pela atividade humana. Um milhão de espécies de animais e plantas estão ameaçadas de extinção. Em Portugal, 540 espécies figuram na Lista Vermelha da UICN. O Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal prometeu mudar isso até 2030. Faltam quatro anos e o ritmo é insuficiente.
A Terra já viveu cinco extinções em massa. A sexta está em curso e, pela primeira vez na história do planeta, tem um agente principal identificado: a espécie humana.
A biodiversidade – a variedade de vida em todas as suas formas, dos genes às espécies e aos ecossistemas – não é um adorno do planeta. É a sua arquitetura funcional. As florestas que regulam o clima e o ciclo da água, os solos que produzem o alimento, as abelhas e outros polinizadores que permitem a reprodução de 75% das culturas alimentares, os oceanos que absorvem CO2 e produzem metade do oxigénio que respiramos – tudo isto depende de ecossistemas que, por sua vez, dependem da diversidade das espécies que os compõem. Quando a biodiversidade colapsa, a infraestrutura de suporte da vida humana colapsa com ela.
O relatório de avaliação global do IPBES, publicado em 2019, estimou que cerca de um milhão de espécies animais e vegetais enfrentam extinção – muitas nas próximas décadas, se nada mudar. As cinco pressões principais foram identificadas: alterações no uso do solo e do mar (a causa mais devastadora), sobre-exploração de organismos, alterações climáticas, poluição e espécies exóticas invasoras. Estas pressões atuam em simultâneo e potenciam-se mutuamente, tornando a biodiversidade global mais frágil a cada ano que passa.
Os números mais recentes confirmam a trajetória. A Lista Vermelha da UICN de 2024 avaliou 163.040 espécies em todo o mundo – o valor mais elevado de sempre – identificando 26.367 plantas com flor, 3.927 peixes, 2.873 anfíbios, 1.354 aves e 1.338 mamíferos em risco de extinção. A cada edição da Lista Vermelha, o número de espécies ameaçadas cresce. As extinções conhecidas são apenas a ponta de um icebergue muito maior, dado que a maioria das espécies não chegou sequer a ser cientificamente descrita.
“Tal como o tema do Dia Internacional deste ano nos recorda, viver em harmonia com a natureza e com o desenvolvimento sustentável é o caminho a seguir para que a humanidade construa um mundo melhor para todos.” – António Guterres, Secretário-Geral da ONU, Dia Internacional da Biodiversidade 2025
Quadro de Kunming-Montreal: um acordo histórico a ritmo insuficiente
Em dezembro de 2022, a COP15 da Convenção sobre a Diversidade Biológica, realizada em Montreal, produziu o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (GBF) – considerado o acordo mais ambicioso sobre biodiversidade desde a Convenção de 1992. Os seus 23 objetivos para 2030 incluem a proteção de 30% da terra e do mar (a meta “30×30”), a restauração de 30% dos ecossistemas degradados, a redução de metade da introdução de espécies invasoras e a eliminação de 500 mil milhões de dólares anuais em subsídios prejudiciais à biodiversidade.
A COP16, realizada em Roma em 2025, deu um passo importante na mobilização de recursos financeiros para a implementação do quadro. Mas o ritmo de transposição nacional continua a ser insuficiente. A maioria dos países ainda não atualizou as suas Estratégias e Planos de Acão Nacionais para a Biodiversidade em conformidade com o GBF. E as pressões sobre os ecossistemas – desmatamento, intensificação agrícola, poluição, espécies invasoras – não diminuíram desde a assinatura do acordo.
O secretário-geral António Guterres apelou em 2025 a que os governos aproveitassem os progressos de Roma para “eliminar os apoios públicos a atividades que prejudicam a natureza”. São os chamados “subsídios perversos” – apoios à agricultura intensiva, à pesca excessiva e a combustíveis fósseis que, no plano económico, tornam a destruição da biodiversidade mais lucrativa do que a sua conservação. A reforma destes subsídios é politicamente difícil e sistematicamente adiada.
Portugal: biodiversidade única, sob pressão crescente
Portugal é um dos países com maior biodiversidade da Europa. É também um dos que enfrenta maiores ameaças – e que tem mais responsabilidade de proteger o que ainda existe.
A posição geográfica de Portugal – na encruzilhada entre a Europa Atlântica e o Mediterrâneo, entre a Europa e a África, com um território continental e dois arquipélagos macaronésios – confere-lhe uma biodiversidade excecionalmente rica para a sua dimensão. Nos Açores e na Madeira existem espécies e ecossistemas únicos no mundo, como a Laurissilva madeirense, floresta relíquia do período terciário classificada como Património Mundial da UNESCO. O continente alberga habitats mediterrânicos, atlânticos e sub-áridos que, em conjunto, sustentam centenas de espécies de plantas, aves, mamíferos, répteis, anfíbios e insetos exclusivos ou particularmente abundantes.
Mas o estado de conservação desta biodiversidade é preocupante. A Lista Vermelha da UICN de 2024 identificou 540 espécies ameaçadas em Portugal – nas categorias Criticamente em Perigo, Em Perigo e Vulnerável. A destruição de habitats é a ameaça mais premente, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, atuando através da intensificação agrícola, da urbanização costeira e da expansão de infraestruturas de energia e transporte.
Casos emblemáticos: do cavalo-marinho ao lince
Alguns casos ilustram bem a dimensão e as causas da perda de biodiversidade em Portugal. O cavalo-marinho é talvez o mais dramático: na Ria Formosa, que já foi considerada a maior comunidade de cavalos-marinhos do mundo, a população passou de 1,3 milhões para 150 mil indivíduos entre 2001 e 2019 – uma quebra de 88%. A causa foi a apanha ilegal e a perturbação turística. Projetos de reintrodução em curso, como o Seahorse, tentam reverter o declínio com animais criados em cativeiro na Estação Marinha do Ramalhete.
O lince-ibérico conheceu, nos últimos anos, uma recuperação que foi notícia mundial. Classificado em 2002 como o felino mais ameaçado do mundo, com apenas algumas dezenas de indivíduos no mundo, atingiu em 2024 uma dimensão populacional suficiente para a UICN melhorar o seu estatuto de “Em Perigo” para “Vulnerável” – uma das maiores histórias de sucesso na conservação de grandes carnívoros. Em Portugal, a espécie voltou a reproduzir-se no Vale do Guadiana após décadas de ausência. O sucesso deveu-se a programas de reprodução em cativeiro, reintrodução, recuperação das populações de coelho-bravo (a sua presa principal) e redução da mortalidade por atropelamento.
O lobo-ibérico, com cerca de 75 indivíduos estimados em Portugal, continua em situação frágil. A sua coexistência com a atividade pecuária é uma das questões mais complexas da conservação nacional – envolvendo compensações a criadores por ataques a gado, mas também a necessidade de manter populações viáveis numa espécie com papel ecológico fundamental na regulação dos ecossistemas. O saramugo, um pequeno peixe de água doce da bacia do Guadiana, está “Criticamente em Perigo” de extinção, com populações fragmentadas e ameaçadas por espécies invasoras como a perca-sol e o achigã.
As espécies de aves dos habitats agrícolas – rola-brava, picanço-barreteiro, sisão – acusaram quedas de 40% a 50% nos últimos 15 anos por causa da intensificação agrícola, em especial no Alentejo. O montado – o sistema agro-silvo-pastoril de sobro e azinho que é um dos ecossistemas mais ricos e únicos da Europa – está sob pressão crescente da seca, das pragas e da redução da rentabilidade para os proprietários. O montado alberga espécies raras como a águia-imperial-ibérica e o abutre-preto, e é um sumidouro de carbono de enorme valor.
Espécies invasoras: o inimigo silencioso
Portugal enfrenta um problema crescente com espécies exóticas invasoras – organismos introduzidos, deliberada ou acidentalmente, que proliferam sem os predadores naturais que os controlam nos seus ecossistemas de origem. A vespa-asiática (Vespa velutina), introduzida por volta de 2011, é hoje uma das maiores ameaças às populações de abelhas melíferas e às comunidades de insetos polinizadores em todo o território continental. O jacinto-aquático, a acácia, o eucalipto sem gestão adequada, a perca-sol nos rios – cada uma destas espécies altera os ecossistemas que coloniza, reduzindo o espaço disponível para as espécies nativas.
O Quadro de Kunming-Montreal fixou como meta reduzir a metade a taxa de introdução de novas espécies invasoras até 2030. Em Portugal, a legislação existe – o Decreto-Lei 92/2019 regula as espécies invasoras – mas os recursos para deteção precoce, controlo e erradicação são manifestamente insuficientes.
Biodiversidade que não se vê
A conservação foca-se nos grandes mamíferos e nas aves coloridas. Mas os ecossistemas dependem de uma biodiversidade invisível que é, muitas vezes, ainda mais crítica.
Os insetos polinizadores – abelhas, borboletas, moscas, besouros – são responsáveis pela reprodução de três quartos das plantas com flor e de cerca de 87% das principais culturas alimentares do mundo. O declínio global dos insetos, documentado em múltiplos estudos publicados na última década, é uma das ameaças mais diretas à segurança alimentar humana. Em Portugal, os dados sobre o estado das populações de insetos são escassos, mas a tendência europeia é de declínio acelerado.
Os fungos do solo – pouco estudados e raramente mencionados nas campanhas de conservação – são fundamentais para a fertilidade dos solos agrícolas e florestais, mediando a absorção de nutrientes pelas plantas e a decomposição da matéria orgânica. Um estudo publicado em 2023 estimou que os solos europeus perderam uma fração significativa da sua diversidade fúngica nas últimas décadas, principalmente por causa da lavoura intensiva e do uso de fungicidas. A degradação dos solos afeta a produtividade agrícola, a capacidade de retenção de água e o sequestro de carbono.
Os microbiomas aquáticos – as comunidades de bactérias, algas e protozoários que existem em rios, lagos e oceanos – regulam a qualidade da água, sustentam as cadeias alimentares aquáticas e são extremamente sensíveis à poluição e às alterações de temperatura. O estado ecológico deficiente de 63% das massas de água superficiais da UE, documentado pela Agência Europeia do Ambiente em 2024, reflete em parte o colapso desta biodiversidade invisível, mas indispensável.
Natureza e clima: crises irmãs que precisam de respostas integradas
A crise da biodiversidade e a crise climática são frequentemente tratadas como problemas distintos. São, na realidade, dois sintomas do mesmo modelo de relação com o planeta natural.
Esta ligação é reconhecida formalmente pela ONU e pelos principais acordos internacionais. As florestas e os solos que sequestram carbono dependem da biodiversidade. As alterações climáticas destroem habitats e alteram a distribuição das espécies. A perda de biodiversidade enfraquece a resiliência dos ecossistemas à mudança climática. Um planeta com menos biodiversidade é um planeta menos capaz de regular o seu próprio clima – o que, por sua vez, acelera a perda de biodiversidade num ciclo de retroalimentação negativa.
As soluções baseadas na natureza – restauro de ecossistemas, florestação com espécies nativas, recuperação de zonas húmidas, agricultura de conservação – são ao mesmo tempo medidas de mitigação climática e de conservação da biodiversidade. E são, em muitos casos, as mais custo-eficazes disponíveis. O Regulamento de Restauro da Natureza da UE (2024/1991), que obriga os Estados-Membros a fixar metas nacionais de restauro de ecossistemas degradados até 2030 e 2050, é o instrumento europeu mais relevante nesta direção.
Em Portugal, a Estratégia Nacional para a Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030 (ENCNB2030), aprovada em 2018, estabelece os objetivos nacionais alinhados com os acordos internacionais. A sua implementação tem sido lenta e o financiamento insuficiente para as metas estabelecidas. O PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) inclui investimentos em restauro de habitats e na Rede Natura 2000, mas o impacto efetivo na reversão dos declínios observados ainda não é visível à escala necessária.
“Proteger o planeta é responsabilidade de todos. A biodiversidade está a enfrentar ameaças cada vez maiores, desde a caça ilegal às alterações climáticas, passando pelas espécies invasoras. Felizmente que a Lista Vermelha também aponta soluções. Com uma ação conservacionista sustentada, colaborativa e baseada na ciência, podemos resgatar espécies do limiar da extinção.” – Grethel Aguilar, Directoria-geral da UICN, 2024
22 de maio: a biodiversidade que sustenta tudo o resto
O Dia Internacional da Biodiversidade não tem a visibilidade mediática do Dia da Terra ou do Dia do Ambiente. Mas o problema que assinala é, provavelmente, o mais profundo de todos: a erosão da teia de vida que torna o planeta habitável. Um planeta com menos espécies é um planeta menos resiliente, menos produtivo e menos capaz de sustentar a complexidade das civilizações humanas.
A boa notícia é que a biologia da conservação demonstrou repetidamente que as extinções não são inevitáveis – quando há recursos, vontade política e ação atempada. O lince-ibérico é uma prova disso. O corvo-marinho-de-faces-brancas, o saramugo, o cavalo-marinho da Ria Formosa são projetos em curso que podem ser histórias de sucesso, desde que o financiamento e a atenção se mantenham. As metas do Quadro de Kunming-Montreal são alcançáveis, se os governos, as empresas e os cidadãos agirem em conjunto e à escala e velocidade exigidas.
Portugal tem uma responsabilidade especial nesta agenda: é um dos países biologicamente mais ricos da Europa, tem uma Rede Natura 2000 que cobre parcelas significativas do território, e tem uma tradição científica de estudo e conservação da natureza que não pode ser desperdiçada por falta de financiamento ou de ambição política. A biodiversidade que existe hoje em Portugal – nos montados do Alentejo, nas zonas húmidas do Tejo e do Sado, na Laurissilva da Madeira, nos mares dos Açores – não se recupera facilmente uma vez perdida. E não pode ser recuperada de todo, quando uma espécie extingue.

