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A reciclagem de plásticos na Europa quase parou – e o relatório que o prova chegou esta semana

O crescimento da produção circular de plásticos na Europa caiu de 13,6% para 1,2% entre 2022 e 2024. Quatro fábricas de reciclagem química estão a fechar ou a entrar em insolvência. Mais de 70% dos resíduos plásticos europeus continuam a ir para incineração ou aterro. E 19% da procura europeia de plásticos circulares é agora satisfeita por importações – sobretudo da Ásia. Estes são alguns dos dados centrais do relatório The Circular Economy for Plastics 2026, publicado a 19 de maio pela Plastics Europe. A mensagem é inequívoca: a transição para uma economia circular de plásticos na Europa travou – precisamente no momento em que os competidores globais estão a acelerar.

O relatório bienal da Plastics Europe – a associação que representa os fabricantes europeus de plásticos, com centros em Bruxelas, Frankfurt, Londres, Madrid, Milão e Paris – é publicado de dois em dois anos e constitui a análise de dados mais abrangente e transparente disponível sobre o sistema europeu de plásticos. A edição de 2026, que analisa os dados de 2022 a 2024 e inclui pela primeira vez dados sobre fluxos comerciais internacionais de plásticos fósseis e circulares, apresenta um retrato com um marco histórico e um alerta de emergência em simultâneo.

O marco: em 2024, pela primeira vez, 15,8% da produção total de plásticos na Europa foi circular – proveniente de reciclagem mecânica, reciclagem química ou materiais de base biológica. É o valor mais elevado alguma vez registado. A Plastics Europe celebra-o como indicador de progresso real na transição.

Mas a diretora-geral da Plastics Europe, Virginia Janssens, foi imediatamente direta sobre o que os números escondem: este marco reflete em grande medida o declínio da produção fóssil, não um crescimento real da circularidade. A produção de plásticos de base fóssil caiu 8,3% entre 2022 e 2024, passando de 47,2 para 43,3 milhões de toneladas. A proporção de circulares subiu porque o denominador – a produção total – encolheu. No mesmo período, a produção circular cresceu apenas 1,2% ao ano, face a 13,6% no período anterior. O crescimento quase parou.

As causas: energia cara, importações baratas e regulação insuficiente

O relatório identifica três causas estruturais para a travagem da circularidade dos plásticos europeus. A primeira é o custo operacional: a energia cara – uma herança persistente da crise energética de 2022-2023 agravada pela instabilidade geopolítica – torna as operações de reciclagem na Europa significativamente mais caras do que noutras regiões do mundo. A reciclagem mecânica e, especialmente, a reciclagem química são processos intensivos em energia. Com preços de eletricidade industrial entre duas a três vezes superiores aos dos concorrentes asiáticos, os recicladores europeus operam com margens que, em muitos casos, tornaram a atividade economicamente inviável.

A segunda causa é a concorrência de importações asiáticas de baixo custo. A China e outros países asiáticos estão a aumentar rapidamente a sua capacidade de produção de plásticos circulares e a exportá-los para a Europa a preços que os produtores europeus não conseguem igualar. O resultado é que 19% da procura europeia de plásticos circulares está a ser satisfeita por importações – e 12,4% dos resíduos plásticos recolhidos na Europa está a ser exportado para reciclagem noutras regiões, em vez de ser processado internamente. O resíduo plástico europeu, em vez de se tornar um recurso para a economia circular europeia, está a sair do continente – levando consigo valor, empregos e inovação.

A terceira causa é a insuficiência dos sinais de mercado criados pela regulação existente. Apesar de instrumentos importantes como o PPWR (Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagens) e o Circular Economy Act em preparação, a procura doméstica de plásticos reciclados não está a crescer ao ritmo necessário para justificar o investimento em nova capacidade de reciclagem. Sem um mercado doméstico robusto que pague um prémio suficiente pelo material reciclado europeu face aos plásticos virgens importados, o modelo de negócio da reciclagem colapsa.

Fábricas que fecham: um sintoma com nomes próprios

A crise que o relatório documenta em números abstratos tem expressão concreta em fábricas que fecham, empregos que desaparecem e investimentos que se perdem. A Plastics Recyclers Europe estima que o sector perdeu quase um milhão de toneladas de capacidade de reciclagem entre 2023 e o final de 2025, com 2024 a registar a maior contração de capacidade alguma vez medida.

Os casos mais recentes confirmam a tendência. A Plastic Energy, empresa britânica que converte resíduos plásticos em óleo de pirólise, entrou em insolvência nas suas operações no Reino Unido. A Viridor anunciou o encerramento das suas três fábricas europeias de reciclagem química de plásticos, na Noruega, na Dinamarca e na Suécia. A Veolia saiu completamente da reciclagem de plásticos na Alemanha, encerrando o seu complexo de Bernburg. Nos Países Baixos e no Reino Unido, várias instalações fecharam em 2024 e no início de 2025.

O paradoxo é cruel: estas fábricas foram construídas, em muitos casos, com financiamento público e com apoio de fundos europeus de transição verde. Fecham precisamente quando a regulação europeia está a começar a criar os requisitos de conteúdo reciclado que deveriam ser a sua base de mercado. O timing entre a criação da infraestrutura e a criação do mercado não coincidiu – e o resultado é capacidade destruída que levará anos e investimento adicional a reconstruir.

O que a Europa precisa de fazer – e o que já está em curso

O relatório da Plastics Europe não é apenas um diagnóstico: inclui recomendações políticas apresentadas à Comissão Europeia e aos Estados-membros como condições para desbloquear o investimento necessário. As três prioridades são: criar condições de mercado que tornem economicamente viável a operação de instalações de reciclagem na Europa; reforçar os requisitos mínimos de conteúdo reciclado no PPWR para criar procura doméstica garantida; e introduzir novos códigos aduaneiros que diferenciem plásticos virgens de plásticos circulares.

Do lado da Comissão Europeia, algumas medidas já estão em curso. Em dezembro de 2025, a Comissão harmonizou regras de economia circular para plásticos e anunciou a criação de novos códigos aduaneiros. A Circular Plastics Alliance foi relançada em 2026 com mandato renovado. E o Circular Economy Act, previsto para adoção no terceiro trimestre de 2026, poderá incluir mecanismos de criação de procura mais robustos.

Para Portugal, as implicações são tanto de risco como de oportunidade. O país tem uma das capacidades instaladas de reciclagem de plásticos mais modestas da Europa Ocidental – o que significa que está menos exposto ao risco de encerramento de fábricas, mas também menos posicionado para capturar as oportunidades de uma eventual recuperação do mercado. O sistema Volta, lançado em abril de 2026 para embalagens PET e metálicas, é um primeiro passo – mas a valorização efetiva desse material depende de haver capacidade de reciclagem doméstica para o processar.

OS NÚMEROS DO RELATÓRIO PLASTICS EUROPE 2026

Produção circular total na Europa (2024): 8,7 milhões de toneladas – 15,8% da produção total europeia de plásticos (subiu de 14,4% em 2022, principalmente porque a produção fóssil caiu).

Crescimento anual da produção circular: caiu de 13,6% (2018-2022) para apenas 1,2% (2022-2024). A nível global, o crescimento acelerou de 5% para 7,7% no mesmo período.

Procura dos conversores europeus por plásticos circulares: crescimento anual caiu de 16,2% (2018-2022) para 4% (2022-2024).

Dependência de importações: 19% da procura europeia de plásticos circulares é satisfeita por importações; 12,4% dos resíduos plásticos recolhidos na Europa é reciclado fora do continente.

Destino dos resíduos plásticos europeus: mais de 70% ainda vai para incineração ou aterro. Apenas cerca de 13% é reciclado em novos plásticos.

Capacidade perdida: quase 1 milhão de toneladas de capacidade de reciclagem destruída entre 2023 e o final de 2025, segundo a Plastics Recyclers Europe.

Fonte: Plastics Europe / C&EN / Recycling Magazine / House of Impact / Packaging Europe

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