Sem abelhas, não há almoço: o declínio silencioso dos polinizadores
Dia Mundial das abelhas
Um terço das espécies de abelhas está em risco de extinção. Em Portugal, um plano de ação aprovado em 2026 promete reverter o declínio dos polinizadores – mas a dotação orçamental de dois milhões de euros contrasta com os dois mil milhões que estes incestos geram anualmente para a economia agrícola nacional.
Existem há mais de 135 milhões de anos. Sobreviveram a extinções em massa, a glaciações e a transformações radicais do planeta. Mas estão a sucumbir à agricultura intensiva, aos pesticidas sistémicos, ao parasita varroa e ao avanço de uma espécie invasora originária da Ásia. As abelhas – todas as cerca de 20 mil espécies conhecidas no mundo – estão em declínio. E a pergunta que os cientistas começam a colocar com crescente seriedade é: o que acontece à cadeia alimentar se elas desaparecerem?
A resposta curta é: muita coisa. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que cerca de 75% das culturas alimentares do mundo dependem, pelo menos em parte, da polinização por insetos – e as abelhas são responsáveis pela fatia mais expressiva desse serviço. Frutas, legumes, oleaginosas, cacau, café, amêndoa: nenhum destes alimentos chega à mesa sem a intervenção de um polinizador. Em Portugal, os especialistas calculam que os polinizadores geram anualmente cerca de dois mil milhões de euros de valor para a economia agrícola nacional.
Diagnóstico: um terço das espécies em risco
A Comissão Europeia alertou em 2022 para um forte declínio das populações de polinizadores na Europa, estimando que cerca de um terço das espécies de abelhas está a desaparecer, sobretudo por pressão humana. A alteração do uso do solo, a agricultura intensiva, a poluição, as espécies exóticas invasoras e as alterações climáticas figuram entre as principais ameaças identificadas. O Parlamento Europeu pediu um plano de ação para combater a mortalidade das abelhas e a proibição de substâncias ativas de pesticidas – nomeadamente os neonicotinóides – com base em dados científicos comprovados.
Os neonicotinóides são inseticidas sistémicos que se distribuem por todos os tecidos da planta, incluindo o pólen e o néctar que as abelhas recolhem. Afetam o sistema nervoso central dos insetos, causando desorientação, perda de memória e incapacidade de regresso à colmeia – um fenómeno conhecido como “colapso de colónia“. A União Europeia restringiu o uso de três substâncias da família em 2018 e avançou com medidas adicionais nos anos seguintes, mas várias organizações ambientalistas, incluindo a Quercus em Portugal, continuam a denunciar exceções e derrogações que permitem a sua utilização em circunstâncias específicas.
Em Portugal, os apicultores apontam ainda dois outros inimigos. O ácaro Varroa destructor, parasita que se instala nas células de cria da colmeia e enfraquece as abelhas ao longo de gerações, é considerado a principal causa de mortalidade das colónias a nível europeu. A vespa asiática (Vespa velutina), chegada à Península Ibérica no início dos anos 2010, tornou-se um predador omnipresente: uma única vespa pode matar dezenas de abelhas por dia à entrada da colmeia. Só no norte de Portugal, os prejuízos acumulados para a apicultura atingem valores que marcam profundamente o sector.
Portugal aprova um plano – com orçamento a debate
Em abril de 2026, Portugal aprovou um plano de ação para reverter o declínio dos polinizadores até 2030 – abelhas, moscas-das-flores, borboletas noturnas e diurnas incluídas. O documento prevê um investimento de dois milhões de euros para o biénio 2026-2027, garantido pelo Fundo Ambiental, e promete apoiar a conservação de milhares de espécies fundamentais para a agricultura e o equilíbrio dos ecossistemas.
A ambição do plano foi reconhecida por organizações ambientalistas, mas a dotação orçamental gerou críticas imediatas. “O investimento de dois milhões de euros para o biénio 2026-2027 é importante, mas irrisório perante os dois mil milhões de euros que estes insetos geram anualmente para a economia agrícola nacional“, afirmou a associação Zero. A mesma organização assinalou uma contradição estrutural que atravessa a iniciativa: um plano que promove biodiversidade convive com um modelo agrícola que abraça cada vez mais a abordagem intensiva e o uso de pesticidas – uma das principais causas do declínio que se pretende inverter.
A técnica especialista do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Helena Ceia, tentou traduzir a urgência em linguagem acessível: “Muitas pessoas não sabem que 75% dos alimentos a nível mundial dependem dos polinizadores. Nem lhes passa pela cabeça que, se os polinizadores desaparecessem, nós praticamente não tínhamos comida. Vivíamos do quê? Sobraria o peixe, a batata e pouco mais“.
Europa tenta inverter a tendência até 2030
A União Europeia lançou em 2023 o “Novo Pacto para os Polinizadores“, um plano de sete anos que prevê o reforço da monitorização dos insetos nos 27 Estados-Membros e medidas para travar o declínio populacional. A iniciativa integra a Estratégia de Biodiversidade 2030 e o Pacto Ecológico Europeu, e vem na sequência de uma revisão que concluiu que as medidas anteriores não eram suficientes para reverter a tendência.
Entre as medidas propostas contam-se a criação de corredores de biodiversidade com flores nativas, a redução do uso de pesticidas no âmbito da estratégia “Do Campo à Mesa“, e o apoio a práticas agrícolas que integrem a conservação dos polinizadores como critério de elegibilidade para fundos europeus. A questão da compatibilidade entre produção agrícola intensiva e conservação dos polinizadores permanece, no entanto, por resolver – e é nesse espaço de tensão que o debate político mais se agudiza.
O que cada um pode fazer
Num contexto em que as políticas públicas avançam a passo mais lento do que o declínio das populações, a intervenção ao nível local e individual ganha relevância. Semear plantas nativas polinizadoras em jardins, varandas e espaços verdes urbanos é uma das ações com maior impacto documentado. Lavandas, salvas, silvas, tomilhos e girassóis são espécies que atraem abelhas e outros polinizadores. Reduzir ou eliminar o uso de pesticidas em contexto doméstico, manter zonas de terra não tratada onde as abelhas solitárias possam nidificar, e apoiar produtores que pratiquem agricultura biológica ou de baixo impacto são outras formas de contribuição direta.
A apicultura urbana, ainda embrionária em Portugal, começa a ganhar espaço em algumas autarquias como forma de consciencialização e de reforço das populações de abelhas domésticas. Não substitui a conservação das espécies selvagens – que representam a grande maioria das 20 mil espécies conhecidas, mas sinaliza uma mudança cultural relevante: a ideia de que as abelhas são parceiras de habitat, e não apenas produtoras de mel.´
Contexto: o que é o Dia Mundial das Abelhas
O Dia Mundial das Abelhas é assinalado a 20 de maio desde 2018, data instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em dezembro de 2017. A escolha do dia 20 de maio homenageia Anton Janša, apicultor esloveno nascido em 1734 e pioneiro das técnicas modernas de apicultura. O objetivo da data é sensibilizar para o papel essencial das abelhas e de outros polinizadores na saúde dos ecossistemas, na segurança alimentar global e no equilíbrio da biodiversidade.

