#18 Pegada Semanal – 22 a 29 de maio

Bom dia, e bem-vindos ao Pegada Semanal. Eu sou a Alexandra Costa.

A semana que passou foi uma semana de ciência, de diplomacia e de boas notícias – o que, neste podcast, não é tão raro quanto possam pensar, mas é sempre bem-vindo. Vamos falar de uma investigação publicada na revista Science que chegou a uma conclusão simultaneamente óbvia e alarmante sobre o futuro das plantas no nosso planeta. Vamos falar do Dia Mundial do Ambiente, que se aproxima a 5 de Junho, com o Azerbaijão como anfitrião, e do que isso significa. E na Europa, acompanharemos uma peça legislativa que saiu das primeiras páginas dos jornais, mas que vai mudar profundamente as relações comerciais entre a União Europeia e os países produtores de matérias-primas. Em Portugal, o sistema Volta recebeu um aditamento polémico – e o Algarve ganhou um novo geoparque da UNESCO.

Vamos a isso.

As plantas que conhecemos podem não sobreviver ao século: o estudo que reescreveu as previsões

A 23 de maio, a revista Science publicou um estudo que dificilmente podia ter chegado em melhor altura – a semana a seguir ao Dia da Biodiversidade. A investigação, liderada por Junna Wang, investigadora pós-doutoral da Universidade de Yale, e por Xiaoli Dong, professor da Universidade da Califórnia em Davis, analisou o futuro de mais de 67.000 espécies de plantas vasculares – aquelas que têm tecidos condutores de água e nutrientes, o que engloba quase toda a flora conhecida – e chegou a uma conclusão que vai continuar a ser citada durante muito tempo.

Entre 7 e 16 por cento dessas espécies podem perder mais de 90 por cento da sua área de distribuição geográfica até ao final deste século, em razão das alterações climáticas. Isso colocaria um número considerável de espécies em risco elevado de extinção. Entre os exemplos que os investigadores citam estão árvores endémicas da Califórnia e cerca de um terço das espécies de eucalipto – um dos grupos de plantas mais reconhecíveis do mundo.

A novidade conceptual do estudo é a forma como pensa o problema. Em vez de se concentrar apenas na temperatura – a variável mais comum nos modelos climáticos -, os investigadores modelaram o chamado “involucro climático” de cada espécie: a combinação específica de temperatura, precipitação, solos, uso da terra e características da paisagem de que cada planta necessita para sobreviver. E o que descobriram é que, em muitos lugares, as alterações climáticas estão a reduzir essas combinações, deixando cada vez menos áreas onde todas as condições necessárias a uma determinada espécie ainda coexistem.

Há uma imagem proposta pelos autores que vale a pena reter: “à medida que as temperaturas sobem, muitas espécies podem deslocar-se para norte ou para zonas mais elevadas. Mas a temperatura é apenas parte da história”. As plantas não se movem como os animais: a sua deslocação acontece ao longo de gerações, através de sementes e esporos transportados pelo vento ou pelos animais. Para muitas espécies, especialmente as que já têm áreas de distribuição reduzidas ou vivem em habitats fragmentados, essa velocidade de adaptação pode simplesmente não ser suficiente.

O estudo surge numa semana em que o tema da biodiversidade ainda está em fresco na discussão pública, e funciona como um argumento científico poderoso para o que se vai debater na COP17 da Biodiversidade, em Outubro, em Yerevan: as metas de restauro de habitats não são apenas uma questão ambiental abstrata. São uma questão de preservar as condições de existência de parte considerável da flora mundial.

O Dia Mundial do Ambiente e a tensão do Azerbaijão como anfitrião

A 5 de Junho celebra-se o Dia Mundial do Ambiente – e esta semana começou a ganhar forma o que será a celebração deste ano, com o Azerbaijão como país anfitrião, em Baku. O tema oficial deste ano é “Inspired by Nature. For Climate. For Our Future” – “Inspirado pela Natureza. Pelo Clima. Pelo Nosso Futuro” -, e o mote da campanha da UNEP é #NowForClimate.

A escolha do Azerbaijão gerou o tipo de debate que já se tornou familiar na política ambiental global: trata-se de um país em que o petróleo e o gás representam cerca de 90 por cento das receitas de exportação. Foi anfitrião da COP29 em 2024. E vai agora organizar o Dia Mundial do Ambiente. Para os críticos – e houve críticas vindas de várias organizações ambientais -, há um paradoxo evidente em que um dos maiores produtores de combustíveis fósseis da região se torne a face global de uma data dedicada à ação climática.

O Azerbaijão, por seu lado, apresenta os seus investimentos em energias renováveis e a sua estratégia de diversificação económica. O país comprometeu-se a reduzir as emissões em 40 por cento até 2035, relativamente aos níveis de 1990, e tem projetos de energia solar e eólica em curso, incluindo a central solar de Garadagh, com 230 megawatts, e um parque eólico em Khizi-Absheron, com 240 megawatts. A cidade de Baku está também a implementar autocarros elétricos e infraestruturas de mobilidade sustentável.

Esta tensão – entre um país petroestado que quer ser visto como ator da transição e as organizações que questionam essa narrativa – reflete um debate mais amplo sobre quem pode e deve liderar o discurso ambiental global. Não há uma resposta simples. Mas é uma tensão que vai marcar a semana que leva ao 5 de Junho, e que vale a pena conhecer.

O Regulamento Europeu do Desflorestamento: a simplificação que (ainda) não muda o essencial

Há uma peça legislativa europeia que passou quase despercebida no ruído das notícias desta semana, mas que vai ter impacto direto nas cadeias de abastecimento de empresas portuguesas e europeias: o Regulamento Europeu do Desflorestamento, conhecido pela sigla EUDR, e o pacote de simplificação que a Comissão Europeia publicou a 4 de Maio.

O EUDR tem uma lógica simples: qualquer produto colocado no mercado europeu – ou exportado a partir dele – que diga respeito a sete matérias-primas consideradas de risco para as florestas mundiais tem de provar, com documentação, que é livre de desflorestamento. Essas sete matérias-primas são o gado, a madeira, o cacau, a soja, o óleo de palma, o café e a borracha – e uma lista vasta de produtos delas derivados. Para cada lote, as empresas têm de apresentar uma declaração de diligência devida que prove que o produto não veio de áreas desflorestadas após 2020 e que foi produzido de forma legal.

O regulamento já foi adiado uma vez, depois de pressões do sector agrícola e de países produtores, incluindo o Brasil e os Estados Unidos. O pacote de simplificação publicado em Maio confirma a data de entrada em vigor para 30 de Dezembro de 2026 para grandes e médias empresas, com as micro e pequenas a seguirem em Junho de 2027. A Comissão estima que as novas medidas de simplificação reduzam os custos de cumprimento em cerca de 75 por cento face ao quadro original – uma redução substancial que veio diminuir a oposição do sector empresarial.

O que não mudou é o essencial: a obrigação de diligência devida manteve-se intacta. A Comissão foi explícita: o regulamento não será reaberto. As empresas que já estão a trabalhar na conformidade devem continuar. As que esperavam por novas razões de adiamento ficaram sem argumentos.

Para Portugal, o EUDR tem impacto direto em vários sectores: na indústria da madeira e do papel, onde Portugal é um dos maiores produtores europeus de eucalipto; nas importações de café, cacau e soja que chegam a portos portugueses; e nas cadeias de distribuição que usam o território nacional como porta de entrada para o mercado europeu. A consulta pública sobre o ato delegado que ajusta o âmbito do regulamento está aberta até 1 de Junho – qualquer empresa afetada ainda tem tempo de apresentar contributos.

O Dia Mundial do Ambiente e a pré-agenda de Junho para o clima europeu

Com o Dia Mundial do Ambiente a 5 de Junho, a agenda ambiental europeia de Junho promete ser densa. Além do próprio Dia, o mês tem também o fecho da consulta pública ao ato delegado do EUDR, a 1 de Junho, e o arranque do sistema de informação do EUDR, previsto para Junho. Ao longo do mês, a Comissão Europeia deverá ainda apresentar progressões nos dossiers do orçamento plurianual e da Lei de Economia Circular.

Para os Estados-Membros, a pressão continua: o prazo de 1 de Setembro para submeter os Planos Nacionais de Restauro ao abrigo da Lei de Restauro da Natureza está cada vez mais próximo, e as avaliações independentes continuam a apontar para progressões desiguais entre os países.

O sistema Volta e a meta que baixou: polémica ou transparência?

Em Portugal, a notícia da semana que mais dividiu opiniões no âmbito da sustentabilidade foi uma revisão à meta do sistema Volta – o Sistema de Depósito e Reembolso de embalagens de bebidas que arrancou a 10 de Abril. O Jornal Público revelou que a Agência Portuguesa do Ambiente aprovou um aditamento à licença da SDR Portugal – a entidade gestora do sistema – que desce a meta de recolha para 2026 de 70 para 40 por cento.

A notícia gerou críticas imediatas. A Associação Nacional de Municípios Portugueses emitiu um parecer a pedir explicações sobre as razões de fundo para o recuo. A associação lembrou que as metas em causa são também europeias – a diretiva europeia aponta para 70 por cento de recolha em 2026 – e que o equilíbrio do sistema depende da participação de todos os intervenientes.

A SDR Portugal e o Ministério do Ambiente responderam com o mesmo argumento: a meta de 70 por cento era pensada para um ano completo de funcionamento. Como o sistema só arrancou a 10 de Abril e tem um período de transição até 9 de Agosto – durante o qual coexistem embalagens antigas e novas nas prateleiras -, os cinco meses de funcionamento efetivo justificam uma meta proporcional de 40 por cento. O Ministério foi explícito: “não houve qualquer redução de metas”.

Quem tem razão? Provavelmente os dois, e nenhum. A lógica proporcional da SDR tem consistência matemática: 40 por cento em cinco meses equivale a um ritmo anualizado de cerca de 72 por cento, ligeiramente acima da meta original. O problema é de comunicação e de expectativas: o sistema foi lançado com uma meta de 70 por cento claramente associada ao primeiro ano, e o público interpretou isso como o que seria exigido até Dezembro de 2026. A revisão, tecnicamente justificável, chegou de forma pouco transparente e sem a devida explicação prévia.

O que fica desta polémica é um ensinamento sobre comunicação de políticas públicas: quando se lança um sistema novo com metas ambiciosas, a forma como se gerem os ajustamentos inevitáveis do período de arranque é tão importante quanto os resultados em si. A confiança pública num sistema como o Volta depósito-reembolso é um ativo frágil – e importa preservá-lo.

O Geoparque Algarvensis e os sete Geoparques Mundiais UNESCO de Portugal

Agora uma boa notícia – e genuinamente boa, sem ressalvas. Ainda que a notícia tenha chegado no final de Abril, merece ser aqui celebrada porque ainda está na atualidade e porque tem uma dimensão de sustentabilidade que vale a pena explorar.

A UNESCO anunciou, a 24 de Abril, a inclusão do Geoparque Algarvensis na sua Rede Mundial de Geoparques. Com esta distinção, Portugal passa a ter sete Geoparques Mundiais da UNESCO – os seis já existentes (Naturtejo, Arouca, Açores, Terras de Cavaleiros, Estrela e Oeste) mais este novo, o único a sul do rio Tejo. O Algarvensis abrange os municípios de Loulé, Silves e Albufeira, num território de 2.427 quilómetros quadrados que integra a Serra, o Barrocal e o Litoral, incluindo uma componente marinha significativa.

O que torna esta notícia relevante do ponto de vista da sustentabilidade? Um Geoparque Mundial da UNESCO não é apenas um título académico. É um modelo de desenvolvimento territorial que combina a proteção do património geológico com a educação ambiental, o geoturismo e o envolvimento das comunidades locais. A ideia central é que a valorização científica do território pode gerar desenvolvimento económico local sem comprometer o património natural.

No caso do Algarvensis, a UNESCO destacou dois elementos em particular: os depósitos de tsunami na Lagoa dos Salgados, gerados pelo Terramoto de Lisboa de 1755 – um registo geológico único desse evento histórico -, e a Mina de Sal de Loulé, o ponto mais profundo de Portugal aberto ao público. O território documenta mais de 330 milhões de anos de história geológica, com registos da formação do supercontinente Pangeia, da abertura do Oceano Atlântico e de vários episódios de extinção em massa.

A propósito desta notícia, importa registar que Portugal acolhe, entre 27 e 30 de Maio, em Arouca, o I Fórum de Geoparques Mundiais da UNESCO da CPLP – um encontro pioneiro que reúne pela primeira vez os geoparques dos países de língua portuguesa, de Portugal ao Brasil. É mais um exemplo de como o património geológico pode ser um vetor de cooperação internacional e de desenvolvimento sustentável.

Antes de encerrar, um momento para pensar no fio que une as histórias desta semana.

Um estudo sobre o futuro das plantas, um debate sobre quem deve liderar o discurso ambiental global, um regulamento que vai mudar a forma como a Europa compra matérias-primas ao mundo, uma polémica sobre uma meta revista, e um geoparque algarvio que passou a fazer parte do mapa mundial da geologia sustentável. À primeira vista, são histórias muito diferentes. Mas todas elas falam, de alguma forma, da mesma coisa: da relação entre o que sabemos, o que prometemos e o que efetivamente fazemos.

O estudo da Science diz-nos que o que fazemos com o clima vai determinar quais as plantas que existem neste planeta daqui a cem anos. O debate em torno do Azerbaijão diz-nos que as promessas ambientais são avaliadas à luz de quem as faz e do que faz no dia-a-dia. O EUDR diz-nos que a Europa está a usar o peso do seu mercado para exigir que o que compramos não venha à custa das florestas. A polémica do Volta diz-nos que a confiança pública nas políticas ambientais é fraca e preciosa ao mesmo tempo. E o Geoparque Algarvensis diz-nos que o território tem memória geológica de milhões de anos – e que isso pode ser, ao mesmo tempo, um recurso e um argumento para o preservar.

Há uma coerência nisto tudo que muitas vezes se perde no ruído das notícias do dia. A sustentabilidade não é um sector nem uma política. É uma forma de pensar o que temos, o que usamos e o que deixamos para quem vem a seguir.

E chegamos ao fim desta edição do Pegada Semanal. Obrigada por me acompanharem.

Se este episódio vos fez pensar – sobre as plantas que podem não sobreviver ao século, sobre a garrafa de plástico que vão ou não devolver esta semana, sobre o Algarve que tem 330 milhões de anos de história debaixo dos pés – então cumpriu o seu propósito.

Partilhem com quem acham que devia ouvir. Eu sou a Alexandra Costa. Até à semana.

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