Vidro europeu em debate em Bruxelas: como manter a circularidade industrial quando a energia é cara e a concorrência global aumenta
A 4 de junho de 2026, o Town Hall Europe em Bruxelas recebeu o evento anual da Close the Glass Loop – a plataforma europeia que reúne toda a cadeia de valor do vidro, dos produtores de embalagens aos recicladores, passando pelas autarquias, pelos sistemas de responsabilidade alargada do produtor e pelo sector da hospitalidade. O tema central foi simultaneamente uma celebração e um alerta: a Europa construiu os sistemas de recolha e reciclagem de vidro mais avançados do mundo, com uma taxa de recolha de 80,8% em 2023, mas a combinação de energia cara, concorrência global, evolução regulatória e os desafios de descarbonização das fundições está a pôr à prova um modelo que não pode ser dado como garantido. Com a meta de 90% para 2030 e o Circular Economy Act a aproximar-se, o que ficou em cima da mesa em Bruxelas importa diretamente para Portugal – que tem uma versão nacional do vídeo The Sound of Glass e que excluiu o vidro do sistema de depósito Volta.
A reciclagem de vidro é frequentemente apresentada como o caso de sucesso mais sólido da economia circular europeia. E com razão: o vidro é 100% reciclável, infinitamente, sem perda de qualidade. Os 162 centros de produção de embalagens de vidro na Europa empregam diretamente cerca de 125.000 pessoas e processam anualmente mais de 12 milhões de toneladas de vidro recolhido para reciclagem. A taxa de recolha média europeia de 80,8% em 2023 é substancialmente superior à da maioria dos outros materiais de embalagem. E cada tonelada de vidro reciclado incorporada na produção de novas embalagens poupa 670 quilogramas de CO2 e reduz significativamente o consumo de matérias-primas virgens.
Mas o evento anual da Close the Glass Loop de 4 de junho em Bruxelas serviu também para colocar em perspetiva os desafios crescentes que este sistema enfrenta. O ambiente económico atual – caracterizado por preços de energia industrial persistentemente elevados, procura dos consumidores moderada, exposição ao preço do carbono via EU ETS, e intensificação da concorrência global – está a comprimir as margens dos produtores e recicladores de vidro europeus de uma forma que não pode ser ignorada.
A questão colocada no evento é de uma relevância política imediata: sob que condições pode a Europa manter a circularidade industrial do vidro num contexto em que a ambição regulatória está a aumentar – o Circular Economy Act, o PPWR, o Clean Industrial Deal – mas em que as condições económicas de base estão a tornar mais difícil, não mais fácil, operar instalações de reciclagem e fundição com rentabilidade? É exatamente a mesma tensão que o relatório da Plastics Europe documentou para o plástico em maio, mas com uma dinâmica específica do vidro que merece atenção própria.
Meta de 90% para 2030: o que falta percorrer
A Close the Glass Loop tem como objetivo declarado atingir uma taxa de recolha de embalagens de vidro para reciclagem de 90% na União Europeia até 2030. A taxa atual – 80,8% em 2023, os dados mais recentes disponíveis – representa um progresso real face aos valores de uma década atrás, mas deixa uma lacuna de quase dez pontos percentuais a cobrir em menos de seis anos.
A análise que a plataforma publicou sobre o esforço adicional necessário por habitante europeu para atingir os 90% é reveladora das dimensões do desafio. O esforço não é homogéneo: países como a Alemanha, a Bélgica, a Suíça e a Holanda já estão próximos ou acima dos 90%, com sistemas de recolha muito desenvolvidos e culturas de reciclagem enraizadas. No outro extremo, vários países do Sul e do Leste da Europa – incluindo Portugal – têm taxas significativamente abaixo da média europeia, o que significa que o crescimento necessário para atingir a meta coletiva de 2030 concentra-se precisamente nesses mercados.
O sector da hospitalidade é identificado pela Close the Glass Loop como o segmento com maior potencial de melhoria, e também com os maiores desafios de implementação. Os 2 milhões de estabelecimentos HORECA na Europa e no Reino Unido geram coletivamente cerca de 3 milhões de toneladas de embalagens de vidro de uso único por ano – quase 20% do potencial total de reciclagem europeu. Mas a qualidade do vidro recolhido neste sector é frequentemente comprometida por contaminação com cerâmica, o que inviabiliza partidas inteiras de vidro nos centros de reciclagem.
A campanha The Sound of Glass e a versão portuguesa
Uma das iniciativas concretas discutidas no evento de Bruxelas foi o balanço da campanha The Sound of Glass, lançada em Janeiro de 2026 pela Close the Glass Loop em colaboração com a HOTREC – a associação europeia de hotéis, restaurantes e cafés. A campanha, centrada num vídeo curto que usa o contraste sonoro entre vidro e cerâmica para transmitir a mensagem de que os dois materiais podem partilhar a mesma mesa, mas não o mesmo contentor, alcançou desde o seu lançamento uma ampla disseminação em toda a Europa.
Oito versões nacionais personalizadas do vídeo foram produzidas, incluindo uma versão para Portugal – um dado que confirma que o problema da contaminação por cerâmica no sector HORECA é reconhecido como relevante no contexto nacional. A versão portuguesa está a ser distribuída através das organizações parceiras nacionais e dirigida aos profissionais da hospitalidade, numa época em que o turismo em Portugal – com mais de 30 milhões de visitantes internacionais em 2025 – gera pressões crescentes sobre os sistemas de gestão de resíduos, particularmente nos destinos mais procurados.
A dimensão portuguesa desta campanha é inseparável de uma contradição regulatória que o evento de Bruxelas não ignorou: Portugal lançou em Abril de 2026 o sistema de depósito e reembolso Volta para embalagens de plástico e metal, mas excluiu o vidro, que ficou em regime de autorregulação. A Quercus criticou esta exclusão no momento do lançamento do Volta, e a Close the Glass Loop tem argumentado consistentemente que os sistemas de depósito, quando bem implementados, podem elevar as taxas de recolha muito acima dos 90% – muito além do que os sistemas de ecopontos convencionais conseguem, mesmo otimizados.
Energia, carbono e competitividade: o triângulo impossível
O painel central do evento de Bruxelas dedicou-se à questão que define o futuro do sector: como garantir que a circularidade do vidro à escala industrial é economicamente viável num contexto de energia cara, exposição ao carbono e concorrência de importações de vidro de países com custos operacionais mais baixos.
As fundições de vidro são instalações energeticamente muito intensivas: a fusão de areia, calcário e soda para produzir vidro novo – ou a refusão de vidro reciclado, que requer menos energia, mas ainda assim volumes significativos – opera a temperaturas de 1.400 a 1.600 graus Celsius. Num contexto em que os preços da energia industrial na Europa permaneceram elevados após a crise de 2022-2023, os custos de produção do vidro europeu ficaram significativamente acima dos dos concorrentes asiáticos e de outros países com energia mais barata.
A transição das fundições de vidro para combustíveis alternativos – hidrogénio verde, eletricidade renovável, biogás – é tecnicamente possível, mas economicamente desafiante ao ritmo de transição necessário para cumprir as metas climáticas. O EU ETS, que cobre as instalações industriais de vidro, está a criar uma pressão crescente de custo do carbono que, por um lado, incentiva a descarbonização e, por outro, comprime adicionalmente as margens num sector já sob pressão. A sessão do evento dedicada a este tema concluiu que a manutenção da circularidade industrial do vidro na Europa exige políticas deliberadas de apoio à transição energética do sector, e que deixar as forças de mercado sozinhas pode resultar na deslocação da produção para fora da Europa, com consequências para o emprego, para a segurança de abastecimento de embalagens e para os objetivos climáticos.
Circular Economy Act e o PPWR: oportunidade ou risco?
O quadro regulatório europeu em evolução – com o PPWR em aplicação a partir de Agosto de 2026 e o Circular Economy Act previsto para o terceiro trimestre – foi um tema central do evento. A questão colocada pelos representantes da indústria vidreira é pertinente: a regulação que cria requisitos crescentes de conteúdo reciclado e de circularidade nas embalagens é uma oportunidade para o vidro – que já é infinitamente reciclável e tem infraestruturas de reciclagem estabelecidas – ou um risco, se as condições económicas não permitirem escalar a produção circular ao ritmo exigido?
A resposta dos representantes da Direcção-Geral do Ambiente da Comissão Europeia presentes no evento foi de que o quadro regulatório está a ser desenhado para criar incentivos e não apenas obrigações – e que instrumentos como o Circular Economy Act incluirão mecanismos para apoiar a transição dos sectores mais expostos. Mas a indústria vidreira alertou para um paradoxo: os requisitos de conteúdo reciclado crescentes só são alcançáveis se houver vidro reciclado de qualidade suficiente disponível, o que depende de taxas de recolha mais elevadas, que dependem de investimento em sistemas de recolha, que depende de condições económicas que tornem esse investimento rentável.
O evento de Bruxelas de 4 de junho não resolveu este paradoxo, seria surpreendente se o tivesse feito. Mas colocou com clareza a dimensão da interdependência entre política regulatória, condições económicas e investimento em infraestruturas que define o futuro da circularidade do vidro na Europa. E para Portugal – que tem uma temporada de verão pela frente, com o turismo a gerar volumes crescentes de vidro HORECA, e que excluiu o vidro do sistema Volta – a mensagem do evento de Bruxelas é um convite a repensar essa decisão com mais urgência do que aquela com que foi tomada.
Fonte: Close the Glass Loop / Town Hall Europe / WMW / Hotel Management Network / FEVE

