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1.700 ofertas, 76 países: o retrato do mercado de trabalho da economia azul

Mais de 1.700 ofertas de emprego analisadas. Setenta e seis países cobertos. Dezoito áreas temáticas mapeadas. O Blue Economy Jobs Report 2026, publicado a 15 de junho pela plataforma internacional Blue-jobs, é o retrato mais abrangente alguma vez produzido sobre o mercado de trabalho da economia azul – as profissões, os salários, as competências e as tendências que estão a moldar o sector que combina os oceanos com a economia. O diagnóstico é claro: a economia azul está a crescer, a diversificar-se e a internacionalizar-se, mas o mercado de trabalho que a suporta continua fragmentado, com baixa transparência salarial, títulos de emprego genéricos e uma escassez crescente de profissionais com o perfil híbrido – técnico, digital, verde e transversal – que o sector cada vez mais exige.

A economia azul europeia – o conjunto de atividades económicas ligadas aos oceanos, mares e zonas costeiras – gerou em 2023 um valor acrescentado bruto de 263 mil milhões de euros e empregou 4,89 milhões de pessoas na União Europeia, segundo os dados da Comissão Europeia que o relatório cita. O valor duplicou desde 1995. A energia renovável marinha – o segmento de crescimento mais rápido – passou de 65 milhões de euros de volume de negócios em 2009 para 4,1 mil milhões de euros em 2022. E a OCDE estima que a contribuição da economia oceânica para o PIB global poderá dobrar novamente até 2030.

Mas o que distingue o Blue Economy Jobs Report 2026 da maioria dos estudos sobre este sector é o foco no lado humano desta expansão: as pessoas que trabalham nele, as competências que precisam, as condições em que trabalham, o que ganham e o que os empregadores procuram quando publicam uma oferta de emprego. É uma perspetiva que falta frequentemente no debate sobre a economia azul, dominado por dados de valor acrescentado, capacidade instalada e volume de investimento, mas raramente informado por dados robustos sobre o mercado de trabalho.

O relatório foi elaborado por Celia Murcia e Sara H. Gómez, da plataforma de recrutamento e inteligência de mercado Blue-jobs, com sede em Barcelona, e baseou-se na análise de mais de 1.700 anúncios de emprego publicados através da plataforma e de outras fontes como o LinkedIn e os sites de organizações do sector. Os dados cobrem 76 países, com maior concentração na Europa, e foram analisados por métodos estatísticos descritivos. A metodologia tem limitações reconhecidas pelos próprios autores – alguns sectores e regiões podem estar sub-representados, e os dados refletem principalmente vacaturas de nível médio a elevado publicadas em plataformas internacionais. Mas dentro desse âmbito, produz o mapa mais completo disponível do que o mercado de trabalho da economia azul parece hoje.

Onde estão os empregos: Europa domina, mas o mundo inteiro está no mapa

A distribuição geográfica das ofertas analisadas coloca o Reino Unido, a França e a Espanha como os três países europeus com maior número de oportunidades – um padrão que reflete tanto a concentração de instituições de investigação marinha, organizações ambientais e indústrias marítimas nestes países como, parcialmente, o viés metodológico para plataformas de recrutamento internacionais e anglófonas. Fora da Europa, os Estados Unidos e o Canadá têm representação significativa em sectores como a investigação marinha, a consultoria ambiental e a tecnologia oceânica.

A distribuição por sector revela que a Conservação Marinha, Ecologia e Vida Selvagem é a área com maior número de vacaturas a nível global, representando entre 16% e 40% das ofertas consoante a região. A Pesca e Aquicultura é particularmente forte em África, Oceânia e Ásia, refletindo o papel central destes sectores na segurança alimentar e nos meios de vida locais. A Gestão, Consultoria e Negócios emerge como uma área de crescimento transversal, especialmente na Europa e em África – sinal de que à medida que os sectores da economia azul maturam, cresce a procura de funções de coordenação, desenvolvimento estratégico e articulação entre expertise técnica e objetivos políticos.

Dois dados sectoriais são particularmente relevantes para compreender onde a Europa está a liderar: a Biotecnologia Azul concentra aproximadamente 43% de todas as vacaturas globais na Europa, refletindo a presença de infraestruturas de investigação consolidadas e ecossistemas de inovação em torno de bio-recursos marinhos. E a Energia Renovável Marinha concentra 57% das vacaturas globais na Europa, ligado diretamente à maturidade do sector de eólica offshore europeu e ao investimento continuado em investigação, demonstração e desenvolvimento da cadeia de abastecimento.

Quem contrata e quem procura: o ecossistema de empregadores

Um dos dados mais relevantes do relatório é a composição dos empregadores ativos na economia azul, que reflete a natureza intrinsecamente plural do sector. As empresas privadas representam o maior grupo – operando em energia offshore, engenharia marinha, consultoria ambiental, aquicultura, transporte marítimo e tecnologia oceânica. Mas os centros de investigação e institutos tecnológicos representam uma fatia substancial, refletindo a dimensão ciência e inovação do sector. As universidades e instituições de ensino superior têm igualmente presença expressiva – crescentemente envolvidas não apenas na educação, mas em projetos de inovação, empreendedorismo e parcerias com a indústria e o sector público. E as ONG e organizações sem fins lucrativos são especialmente ativas na conservação marinha, governação oceânica e ação climática.

Os perfis profissionais mais frequentemente procurados são gestores e coordenadores de projetos, o que o relatório descreve como reflexo do carácter altamente colaborativo e orientado para projetos da economia azul, onde muitas atividades são implementadas através de projetos internacionais, programas de investigação e parcerias multi-ator. A seguir surgem investigadores, cientistas, técnicos e engenheiros, confirmando o carácter intensivo em conhecimento e inovação do sector. Um problema metodológico relevante detetado pelo relatório: 70% dos títulos de emprego analisados não permitem classificar claramente o perfil profissional, por recorrerem a termos demasiado genéricos como oficial, especialista ou consultor sem descrever a função real. Esta opacidade reduz a acessibilidade das oportunidades para candidatos e complica a análise do mercado de trabalho.

Trabalho presencial, híbrido e remoto: a economia azul tem os pés no mar

Um dos capítulos mais originais do relatório trata as modalidades de trabalho – uma dimensão que a maioria dos estudos de mercado de trabalho ignora, mas que tem implicações diretas para a atratividade das carreiras e para o acesso ao talento global. O sector é maioritariamente presencial: 77% das posições analisadas são integralmente on-site, 14,9% são híbridas e apenas 8,1% são totalmente remotas.

Este resultado não surpreende quem conhece o sector – laboratórios, embarcações de investigação, plataformas offshore, estações de monitorização costeira e instalações de aquicultura não funcionam à distância. Mas o relatório identifica nichos importantes de flexibilidade: os papéis remotos são mais comuns em literacia oceânica, gestão e consultoria, política marinha e energia renovável – posições predominantemente de gabinete, administrativas ou de conceção estratégica. E mesmo em sectores com menos possibilidades de trabalho remoto, há potencial para funções específicas como especialistas em GIS, especialistas em visualização de dados e desenvolvimento de software.

A tensão entre as preferências dos candidatos e as ofertas disponíveis é real: no primeiro semestre de 2026, apenas 16% dos candidatos identificaram o trabalho integralmente presencial como a sua preferência principal, e apenas 25% estavam dispostos a considerar funções que exigissem presença a tempo inteiro. Esta divergência é particularmente relevante para o recrutamento em sectores como a pesca e as energias offshore, onde as funções são inerentemente exigentes em termos de mobilidade e presença física. O relatório alerta ainda para uma limitação importante do trabalho remoto na economia azul: muitas funções remotas exigem autorização de trabalho no país do empregador, limitando efetivamente o acesso de candidatos do Sul Global a oportunidades que poderiam, em teoria, realizar a partir de qualquer ponto do mundo.

Salários: o que o sector paga e o que não quer mostrar

O capítulo de salários é, simultaneamente, um dos mais informativos e um dos mais reveladores de uma disfunção estrutural do mercado de trabalho da economia azul. Apenas 28% das ofertas de emprego analisadas incluem informação salarial – um nível de opacidade que o relatório descreve como particularmente notável num contexto em que a Diretiva Europeia de Transparência Salarial está a criar pressão crescente para a divulgação de remunerações nos anúncios de emprego.

Para o subconjunto de ofertas que divulgam salários, a distribuição é dominada pela faixa intermédia-alta: 46% oferecem entre 2.000 e 4.000 euros mensais, e 36% oferecem acima de 4.000 euros. Apenas 18% ficam abaixo dos 2.000 euros. Este padrão sugere que o sector paga de forma competitiva nos níveis sénior e especializado, mas também que há um viés de seleção nos dados, dado que os empregadores com salários mais competitivos podem ser mais propensos a divulgá-los. A realidade salarial transversal ao sector pode ser mais baixa do que os dados disponíveis sugerem.

Os salários mais elevados estão associados a posições de liderança e gestão de programas – Diretores Executivos, Chief Operating Officers, Gestores Séniores – e a perfis na interface entre a ciência e a política, como Consultores de Política Oceânica. Os investigadores especializados em áreas de nicho – energia climática, restauração de ecossistemas – também atingem os escalões superiores quando combinam qualificações avançadas com expertise específica. A mensagem central é que as carreiras mais bem remuneradas na economia azul são as que combinam progressão de carreira, conjuntos de competências multidisciplinares e envolvimento em sectores com forte relevância política e investimento.

Competências que o sector procura: azuis, verdes, digitais e transversais

A secção mais extensa e analiticamente rica do relatório é dedicada ao mapeamento das competências em procura – organizado num quadro de cinco categorias que o relatório designa como competências azuis, verdes e de sustentabilidade, digitais, transversais e sectoriais.

As competências azuis – específicas da economia oceânica – são o denominador comum que atravessa todos os sectores sem exceção. Independentemente de o profissional trabalhar em pesca, energia renovável, conservação, biotecnologia, política ou turismo, os empregadores procuram consistentemente conhecimento dos sistemas marinhos e aquáticos, literacia oceânica, legislação marinha e governação, pensamento sistémico azul e inovação azul. A prevalência destas competências transversais reflete a crescente consciência de que os desafios da economia azul – das alterações climáticas à perda de biodiversidade, dos conflitos de uso do espaço marítimo à gestão de recursos – não podem ser endereçados através de abordagens disciplinares isoladas.

As competências verdes e de sustentabilidade deixaram de ser um nicho das funções de gestão ambiental e conservação para se tornarem mainstream. Mitigação e adaptação às alterações climáticas, proteção ambiental, conservação da biodiversidade, gestão baseada em ecossistemas e avaliação de impacte ambiental aparecem em perfis de engenharia offshore, transporte marítimo, pesca, consultoria e desenvolvimento de negócios. A sustentabilidade deixou de ser vista exclusivamente como uma questão de conformidade regulatória, é cada vez mais tratada como um driver de inovação, competitividade e criação de valor a longo prazo.

A análise de dados emergiu como a competência digital mais solicitada em toda a economia azul. Independentemente do sector, os empregadores procuram crescentemente profissionais capazes de recolher, gerir, interpretar e aplicar dados para suportar processos de decisão. Esta tendência reflete a transformação digital do sector: sistemas de observação oceânica, teledeteção, gémeos digitais, inteligência artificial e plataformas de monitorização automatizada estão a gerar volumes de dados sem precedente, e a capacidade de transformar dados em conhecimento acionável tornou-se uma competência nuclear para um número crescente de profissões da economia azul. No extremo mais avançado, IA, robótica, sistemas autónomos e gémeos digitais estão a começar a remodelar sectores específicos – tecnologia oceânica, transporte marítimo, operações offshore e engenharia marinha.

Das competências transversais, o pensamento analítico e a resolução de problemas emergem como as mais consistentemente solicitadas em todos os sectores – refletindo a natureza cada vez mais complexa, multidisciplinar e rapidamente evolutiva dos desafios da economia azul. A comunicação e o envolvimento de partes interessadas aparecem em muitos casos quase com tanta frequência quanto as competências técnicas sectoriais, um sinal de que os profissionais da economia azul são crescentemente chamados a atuar como intermediários entre a ciência, a política e a sociedade, e não apenas como executores de tarefas técnicas especializadas.

OS NÚMEROS DO BLUE ECONOMY JOBS REPORT 2026

Base de dados: mais de 1.700 ofertas de emprego analisadas, cobrindo 76 países.

Economia azul europeia (2023): 263 mil milhões de euros em GVA; 4,89 milhões de pessoas empregadas na UE.

Sector de crescimento mais rápido: energia renovável marinha – de 65 M€ em 2009 para 4,1 mil milhões de euros em 2022.

Área sectorial mais representada globalmente: Conservação Marinha, Ecologia e Vida Selvagem (16-40% das vacaturas consoante a região).

Liderança europeia: Biotecnologia Azul (43% das vacaturas globais na Europa); Energia Renovável Marinha (57%).

Modalidade de trabalho: 77% presencial; 14,9% híbrido; 8,1% totalmente remoto.

Transparência salarial: apenas 28% das ofertas divulgam informação salarial.

Distribuição salarial (das ofertas que divulgam): 36% acima de 4.000 €/mês; 46% entre 2.000-4.000 €/mês; 18% abaixo de 2.000 €/mês.

Clareza dos títulos de emprego: apenas 30% permitem identificar claramente o perfil profissional; 70% usam títulos genéricos.

O que isto significa para Portugal

Para Portugal – com uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa, uma tradição histórica de relação com o oceano, e uma posição de liderança em energia renovável que está agora a expandir-se para o eólico offshore – o Blue Economy Jobs Report 2026 é simultaneamente um espelho e um desafio.

O espelho: Portugal está bem posicionado em vários dos sectores onde o relatório identifica maior crescimento de procura de talento – energia renovável marinha, investigação e monitorização oceanográfica, conservação marinha e gestão costeira. O país tem uma rede de instituições de investigação marinha de referência, como o CIIMAR, o IPMA e o Centro de Ciências do Mar, e universidades com programas em ciências do mar, engenharia oceânica e gestão costeira que alimentam o pipeline de talento de que o sector precisa.

O desafio: o relatório documenta que os perfis mais procurados pela economia azul global são cada vez mais híbridos – combinando expertise técnica sectorial com competências digitais (análise de dados, GIS, modelação numérica), competências verdes (avaliação de impacte, adaptação climática, gestão de ecossistemas) e competências transversais (comunicação, envolvimento de partes interessadas, gestão de projetos internacionais). Este perfil híbrido exige sistemas de educação e formação que integrem estas dimensões de forma deliberada, e o relatório documenta que a maioria dos sistemas nacionais ainda está a responder a esta exigência de forma fragmentada.

O relatório identifica ainda uma oportunidade específica para Portugal que merece atenção: a baixa transparência salarial no sector, combinada com a escassez documentada de profissionais com o perfil adequado, cria condições para que empregadores portugueses da economia azul que apostem na transparência e nas boas condições de trabalho se diferenciem na captação de talento – incluindo talento da diáspora portuguesa e de outros países europeus. A economia azul está a tornar-se global; os profissionais que ela precisa também.

Fonte: Blue-jobs / The Blue Economy Jobs Report 2026 / Comissão Europeia / OCDE / Fórum Económico Mundial

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