Os fósseis mais antigos de Portugal têm mais de 550 milhões de anos
Investigadores identificaram em Idanha-a-Nova icnofósseis do período Ediacárico, os mais recuados no tempo alguma vez encontrados no território português, e apresentaram os resultados no XII Congresso Nacional de Geologia.
Portugal acaba de recuar meio milhar de milhão de anos no seu registo fóssil. Uma equipa multidisciplinar de investigadores portugueses e internacionais identificou, em afloramentos rochosos do concelho de Idanha-a-Nova, os mais antigos icnofósseis até hoje encontrados em território nacional – vestígios deixados por organismos marinhos que se moviam pelo fundo oceânico à procura de alimento, há cerca de 554 a 559 milhões de anos.
Os resultados foram apresentados no XII Congresso Nacional de Geologia, realizado na Universidade de Évora sob o tema “Alentejo, onde a Geologia tem Espaço e Tempo“, e colocam o Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO no mapa das referências europeias para o estudo das origens da vida animal complexa.
Marcas de vida no fundo do oceano pré-câmbrico
Os fósseis foram encontrados na Formação Caneiro, uma unidade geológica do Supergrupo Beiras, em dois locais distintos: Penha Garcia e Salvaterra do Extremo. Não se trata de ossos nem de conchas, mas de icnofósseis – traços e galerias escavados por animais nos sedimentos do fundo marinho, preservados nas rochas ao longo de centenas de milhões de anos.
Embora discretos, estes vestígios têm um significado científico profundo. Carlos Neto de Carvalho, geólogo e coordenador científico do Geopark Naturtejo, sublinha que se trata de “uma das mais antigas evidências da presença de animais capazes de modificar o ambiente sedimentar, muito antes da grande explosão de biodiversidade que se deu no período Câmbrico“. Por outras palavras: vida animal organizada, muito antes do momento em que a maioria dos livros de biologia conta que ela explodiu.
A datação foi possível graças a técnicas avançadas de análise de zircões presentes nas rochas sedimentares (LA-ICP-MS U-Pb), que permitiram fixar com elevada precisão a idade dos depósitos. Telmo Bento dos Santos, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, confirmou que os sedimentos onde os icnofósseis foram preservados se acumularam “há cerca de 554 a 559 milhões de anos, durante o Ediacárico, o último período do Precâmbrico“.
Janela para a formação do supercontinente Gonduana
Um segundo estudo, apresentado por Martim Chichorro, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, amplia o alcance da descoberta. A datação de intrusões de rochas magmáticas que atravessam formações geológicas mais antigas da mesma região permitiu restringir a idade dos depósitos de uma Idade do Gelo muito remota e dos mais antigos fósseis de atividade microbiana preservados em Portugal.
Os resultados sugerem que estes ambientes estavam associados a uma bacia oceânica ativa e relativamente profunda, com influência de atividade magmática, num contexto geológico ligado à formação do supercontinente Gonduana. Trata-se, em suma, de uma janela aberta para um dos momentos mais decisivos da história do planeta: a transição entre um mundo dominado por microrganismos nos oceanos e o aparecimento dos primeiros ecossistemas animais complexos.
Idanha-a-Nova como referência científica europeia
Até há poucos anos, os únicos vestígios pré-câmbricos conhecidos em Portugal limitavam-se a raras ocorrências de microfósseis de cianobactérias. O registo geológico e paleontológico português era, neste período, reconhecidamente escasso. Os estudos agora apresentados – iniciados em 2021 com o apoio da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova e da Naturtejo, Empresa de Turismo, EIM – mudam esse panorama de forma significativa.
A região do Geopark Naturtejo, que abrange os concelhos de Penamacor a Nisa e de Oleiros a Idanha-a-Nova, apresenta vastas áreas de xistos e metagrauvaques que, à superfície, parecem monótonas e permanecem mal estudadas pelos especialistas. É precisamente nessa aparente monotonia que se escondem alguns dos registos geológicos mais antigos e relevantes da Península Ibérica.
A equipa científica já planeia a continuidade dos trabalhos, com extensão a novas áreas do Geopark Naturtejo: Segura, Rosmaninhal e os concelhos de Castelo Branco, Proença-a-Nova e Penamacor. As aplicações práticas dos estudos vão da gestão dos recursos geológicos ao geoturismo, reforçando a relevância deste território designado pela UNESCO.
Ciência no território, para além dos fósseis
O XII Congresso Nacional de Geologia foi também palco de outros trabalhos científicos com a participação de Carlos Neto de Carvalho, resultantes da colaboração da equipa do Geopark Naturtejo com investigadores da Sociedade Portuguesa de Paleontologia e do Instituto Politécnico de Tomar. Uma prova de que o conhecimento geológico português está a ganhar escala – e que o território, quando estudado com rigor, tem muito mais para contar do que à partida se julga.

