#09 Pegada Positiva – Cultura como prevenção: o Festival Mental celebra 10 anos a colocar a saúde mental em palco
Nascido da observação de um festival semelhante em Edimburgo, o Festival Mental tornou-se, ao longo de uma década, o evento de saúde mental mais antigo de Portugal. A sua fundadora, Ana Pinto Coelho, terapeuta e diplomada em Oxford, acredita que a cultura – o cinema, o teatro, a música, a dança – é a ferramenta mais eficaz para chegar às pessoas antes de qualquer diagnóstico. De 14 a 17 de maio, o Cinema São Jorge, em Lisboa, recebe a edição do décimo aniversário.
A história do Festival Mental começa com um panfleto apanhado numa sala de cinema em Edimburgo. Ana Pinto Coelho, que viajava com frequência pela Escócia, ficou apaixonada pelo conceito de um festival cultural inteiramente dedicado à saúde mental. Antes de avançar, voltou a Glasgow para falar com a curadora do festival original e perceber se a ideia tinha consistência e resultados reais – a resposta foi afirmativa.
Ser pioneira num território desconhecido teve um preço. O sector cultural dizia que aquilo era “saúde” e não lhe dizia respeito; o sector da saúde via apenas “cultura”. Até a palavra festival era, na área da saúde mental, uma espécie de contradição em termos. Mas a convicção de Ana Pinto Coelho manteve-se, e ao longo dos anos os interlocutores foram percebendo que cultura e saúde mental se complementam – e que há que distinguir sempre entre doença e saúde mental.
Saúde, não doença
O posicionamento do Festival Mental é, desde a origem, inequívoco: trata-se de um festival de saúde mental, não de doença mental. A distinção não é semântica – é estratégica. A ideia é chegar às pessoas antes de qualquer problema, com literacia, promoção e combate ao estigma, usando as disciplinas da cultura como veículo.
O formato que melhor ilustra esta abordagem são as mTalks: conversas com especialistas que acontecem antes da sessão de cinema, e não depois. O público ouve primeiro, entra na sala com um olhar mais informado e vê o filme de outra forma. “As pessoas viram o filme de outra maneira”, confirma Ana Pinto Coelho, citando questionários realizados ao longo de 10 anos. “Aí é que se quebra o estigma”.
O cinema é o ADN central do festival, mas a programação estende-se ao teatro, à literatura, à dança, a workshops e a debates. Em cada edição, a escolha dos temas procura antecipar o que a sociedade ainda não nomeou: a inteligência artificial, a ansiedade climática e a saúde digital foram abordados no festival antes de chegarem ao vocabulário corrente.
Os jovens e o paradoxo da hiperconectividade
Um dos temas recorrentes no Festival Mental é a saúde digital – presente em palco há pelo menos cinco anos. Para Ana Pinto Coelho, o problema não é a tecnologia em si, mas o que se faz com ela: o desligamento da realidade, o viver em bolha, a substituição da presença física pela presença digital. “Chegam a um sítio e tiram uma foto ao invés de olhar para o sítio. Vão a um espetáculo e tiram fotos ao espetáculo. O estar presente começou a deixar de ser uma coisa”, observa.
Sobre os jovens, recusa generalizações fáceis. Por um lado, há uma geração com uma consciência de si próprios e do mundo como nunca antes existiu, capaz de pedir ajuda sem estigma e de distinguir informação fidedigna de ruído. Por outro, alerta para o risco oposto: falar de saúde mental em demasia, sem consequências, é tão perigoso como o silêncio. “Ou não se falava nada, ou agora fala-se demasiado e toda a gente fala, mesmo sem consequências nenhumas sobre aquilo que está a dizer. E isso é grave, gravissímo”.
A raiz do problema, na sua leitura, está na educação: a erosão do pensamento crítico ao longo das últimas décadas deixou as pessoas mais expostas à desinformação e ao consumo passivo. “Distinguir o trigo do joio é muitíssimo importante nos dias que correm”, sublinha.
O acesso continua a ser o maior obstáculo
Dez anos depois do arranque, o estigma recuou nas grandes cidades. Os parceiros do festival já não questionam a ligação entre cultura e saúde mental. A Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental é coprodutora do evento. Mas Ana Pinto Coelho é direta quanto ao que ainda falta: o acesso.
Em Portugal, a psicoterapia continuada é cara e inacessível para muitos. O financiamento público à cultura – “o 1%”, como lhe chama – não ajuda a sustentar projetos desta natureza. Geograficamente, o festival chega ainda a pouco: a tournée nacional que permitiria levar o Festival Mental de Bragança ao Alentejo continua por concretizar na escala desejada. “Quando vou a Miranda do Douro, quando vou ao interior, é claro que há uma falta imensa de haver coisas desta natureza”, diz, acrescentando que as autarquias, na sua maioria, não têm ainda abertura para receber o projeto.
A cultura como âncora – e como responsabilidade
Para Ana Pinto Coelho, a cultura não é um complemento à saúde mental nem um luxo. É a plataforma onde o ser humano consegue exprimir-se de formas que nenhuma outra ferramenta alcança – a música que não precisa de tradução, a pintura que se sente antes de se nomear, o teatro que faz o espectador reconhecer-se sem julgamento. “Não há nada como a cultura que consiga fazer esta ponte, esta conexão entre os seres humanos”, afirma.
É também, diz, uma questão de sustentabilidade – palavra que usa deliberadamente. Não a sustentabilidade dos relatórios corporativos, mas a sustentabilidade de uma sociedade capaz de se reinventar e de cuidar de si mesma. Não há saúde nem sustentabilidade sem saúde mental: a premissa que orienta o festival há uma década continua sem ter encontrado o espaço que merece nas agendas políticas.
Edição dos 10 anos: de 14 a 17 de maio no Cinema São Jorge
A edição comemorativa do décimo aniversário não terá tema único – propõe, antes, um balanço. As mTalks reunirão convidados de edições anteriores para refletir sobre o estado atual da saúde mental em Portugal e o que mudou ao longo desta década. O mClick apresentará projetos disruptivos e novas perspetivas, com apresentações curtas de convidados que trabalham temas ainda pouco explorados na área.
A Mostra Internacional de Curtas-metragens traz este ano um filme vencedor da Polónia, selecionado entre mais de 200 submissões – uma das maiores participações de sempre. As sessões do M-Jovem, para escolas, esgotaram com antecedência e obrigaram à criação de sessão adicional, sinal da crescente adesão dos jovens. O festival encerra com o My Story, My Song, onde a cantora Maria João partilhará música e história pessoal.
O segmento M-Natura terá o documentário Malcata, do realizador Miguel Cortes, seguido de tertúlia sobre natureza e saúde mental. Na Quinta das Conchas, workshops para crianças explorarão a ligação entre emoções e ambiente natural.
O Festival Mental realiza-se de 14 a 17 de maio no Cinema São Jorge, em Lisboa.

