Europa prepara-se para a pior época de incêndios de sempre – e muda de estratégia
Em 2025, a Europa viveu a pior época de incêndios florestais desde o início dos registos: mais de um milhão de hectares destruídos. Em março de 2026, a Comissão Europeia apresentou uma nova estratégia integrada de gestão do risco de incêndios – mais ambiciosa, mais tecnológica e com um eixo central que muda de paradigma: a prevenção antes da resposta. Portugal está diretamente implicado – e beneficia de novos meios aéreos que estão já a caminho.
Os números de 2025 foram incontornáveis. A Europa registou a pior época de incêndios florestais desde que existem dados sistemáticos, com mais de um milhão de hectares consumidos pelo fogo em todo o continente. Países do sul da Europa – Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Croácia – sofreram perdas devastadoras em termos de floresta, biodiversidade, infraestrutura e vidas humanas. Os dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), suportado pelos satélites Copernicus, mostraram que a área ardida aumentou em quatro dos últimos cinco anos.
Este contexto tornou urgente uma resposta à escala europeia. A 25 de março de 2026, a Comissão Europeia apresentou uma nova abordagem integrada à gestão do risco de incêndios florestais, alicerçada em quatro pilares: prevenção, preparação, resposta e recuperação. O documento, enquadrado na Estratégia União da Preparação adotada exatamente um ano antes, em março de 2025, representa uma mudança significativa de filosofia – da reação para a antecipação.
A Comissária para o Ambiente Jessika Roswall foi direta na apresentação da estratégia: ‘Os incêndios estão a tornar-se mais ferozes e mais destrutivos em toda a Europa. Isso demonstra que a resiliência económica está diretamente ligada à saúde dos nossos ecossistemas. Proteger um é proteger o outro‘”.
Prevenção: a aposta nos ecossistemas saudáveis
O coração da nova estratégia é a prevenção – e a ideia central é que a melhor forma de combater um incêndio é criar as condições para que ele não aconteça, ou que, quando acontece, tenha menos combustível disponível e cause menos dano. Isto exige uma mudança no planeamento territorial, na gestão florestal e na relação das comunidades com o fogo.
A Comissão propõe que os países europeus integrem a prevenção e preparação para incêndios no planeamento espacial, criando paisagens resilientes ao fogo. Para isso, publicou uma orientação técnica sobre como adaptar os sítios Natura 2000 – a maior rede coordenada de áreas protegidas do mundo – às alterações climáticas, incluindo a gestão do risco de incêndio dentro dos objetivos de conservação da biodiversidade. O documento esclarece também as flexibilidades que os países têm para intervir rapidamente nesses territórios em situações de emergência.
Um dado revelador da estratégia é que até 96% das ignições de incêndio florestal na Europa têm origem humana – intencional ou acidental. Isto significa que uma parte significativa do problema é comportamental e cultural, e pode ser endereçada através de programas de sensibilização, envolvimento das comunidades locais e formação de voluntários. A Comissão propõe desenvolver um kit de ferramentas para reforçar a resiliência nas zonas de interface urbano-florestal – as áreas de maior risco, onde a floresta encontra os aglomerados populacionais.
Preparação e resposta: mais aviões, mais helicópteros, hub no Chipre
A dimensão mais visível da nova estratégia é o reforço dos meios aéreos de combate a incêndios ao abrigo do rescEU – a reserva estratégica europeia de proteção civil. A Comissão anunciou a aquisição de 12 novos aviões de combate a incêndios e 5 helicópteros, que se juntarão aos meios já existentes.
Os novos aviões serão sediados em seis países: Portugal, Espanha, França, Itália, Croácia e Grécia – os territórios que historicamente concentram o maior risco de incêndio na Europa. Os helicópteros irão para a República Checa, a Eslováquia e a Roménia. O primeiro helicóptero da frota rescEU foi entregue à Roménia em janeiro de 2026 e estará operacional para a temporada de 2026. Os aviões estão previstos para 2028.
Para Portugal, este desenvolvimento é especialmente relevante. O país, que tem sofrido algumas das épocas de incêndio mais devastadoras da Europa na última década – com 2017 como referência traumática – passa a integrar formalmente o conjunto de países que sediará meios aéreos europeus de combate a incêndios. É um reconhecimento da exposição do território português ao risco, mas também um reforço concreto das capacidades de resposta.
A estratégia prevê também a criação de um hub europeu de combate a incêndios em Chipre – um centro regional de treino, exercícios e prontidão sazonal, com dupla função operacional e de formação. A localização no Mediterrâneo Oriental não é casual: é uma das regiões mais vulneráveis às alterações climáticas e com maior pressão sobre os ecossistemas florestais. O hub pretende ainda desenvolver cooperação com regiões sujeitas ao risco de incêndio noutras partes do mundo, nomeadamente a Austrália e a América do Norte.
Tecnologia ao serviço da floresta: satélites, IA e modelação de risco
Para além dos meios físicos, a estratégia aposta fortemente na modernização das ferramentas de deteção e previsão de incêndios. O EFFIS, suportado pelos satélites Copernicus do programa espacial europeu, será reforçado com novos instrumentos de aviso precoce e monitorização em tempo real. A novidade mais relevante é a aposta em modelação de risco assistida por inteligência artificial – ferramentas de IA capazes de prever o comportamento dos incêndios com maior antecedência e precisão, permitindo posicionar meios e alertar populações com mais tempo de margem.
A Comissão propõe também uma padronização da modelação de risco a nível pan-europeu, criando uma metodologia comum que permita comparar e agregar os dados de todos os países. Atualmente, os sistemas nacionais usam metodologias diferentes, o que dificulta a coordenação transfronteiriça em situações de emergência – precisamente quando o tempo conta mais.
Recuperação e saúde dos bombeiros: os elos esquecidos da cadeia
Um dos elementos mais originais da nova estratégia é a atenção dada à saúde a longo prazo dos bombeiros e à recuperação pós-incêndio dos ecossistemas – duas dimensões que tendiam a ser deixadas para segundo plano face à urgência da resposta imediata.
A Comissão propõe a recolha sistemática de dados sobre os riscos de saúde a longo prazo enfrentados pelos bombeiros, associados à exposição a condições perigosas e a substâncias tóxicas geradas durante os incêndios. A investigação existente indica que o contacto prolongado com fumo e produtos da combustão tem efeitos graves na saúde respiratória e aumenta o risco de cancro, mas os dados europeus são ainda escassos e fragmentados.
Quanto à recuperação dos ecossistemas, a estratégia coloca-a explicitamente no quadro do Regulamento de Restauro da Natureza, aprovado em 2024, e defende que a restauração pós-incêndio deve orientar-se para ecossistemas mais resilientes às alterações climáticas, e não apenas para a reposição do coberto vegetal existente, que pode não ser adequado às condições climáticas futuras.
Uma estratégia que chega a tempo, mas que exige implementação
A nova estratégia europeia de gestão do risco de incêndios florestais representa um avanço real na ambição e na abrangência da resposta europeia a um fenómeno que as alterações climáticas estão a intensificar. A mudança de ênfase da resposta para a prevenção, a integração da biodiversidade e da restauração da natureza na equação, e o reforço tecnológico são passos na direção certa.
Mas as estratégias valem pelo que produzem no terreno. A Comissão anunciou que trabalhará em estreita colaboração com os Estados-membros, as regiões, as autoridades de proteção civil, os gestores de território e outras partes interessadas para implementar as medidas. O progresso será regularmente revisto e reportado ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social e ao Comité das Regiões.
Para Portugal, que entra na lista dos países que sediarão aviões rescEU, a implementação da estratégia não é uma questão abstrata. É uma questão de preparar o país para uma realidade que chegará antes da próxima primavera. A janela de oportunidade é estreita, e as florestas não esperam.
Fonte: Comissão Europeia / Proteção Civil e Operações de Ajuda Humanitária da UE

