A sardinha ibérica está de volta – e desta vez, para ficar
Nota editorial: este artigo foi elaborado com base num artigo publicado pelo Marine Stewardship Council (MSC) Portugal.
No dia 4 de maio abriu oficialmente a época da pesca da sardinha em Portugal. Para além do cheiro a brasa e do sabor de verão, esta data marca também um capítulo de recuperação assinalável: depois de anos de colapso dos stocks, a pesca ibérica com redes de cerco voltou a ser certificada pelo Marine Stewardship Council (MSC) – o selo de referência mundial em sustentabilidade das pescas.
A história da sardinha ibérica nos últimos onze anos é uma das mais ilustrativas do que acontece quando a sobrepesca, as alterações ambientais e a ausência de gestão coordenada se conjugam – e também do que é possível alcançar quando científicos, pescadores, indústria e governos decidem trabalhar em conjunto.
Do colapso à certificação
Em 2014, a pesca portuguesa da sardinha perdeu a certificação MSC. Os stocks tinham caído para níveis críticos: recrutamento insuficiente, pressão excessiva da pesca e alterações nas condições oceânicas tinham comprometido a regeneração da espécie. Em 2017, o cenário era tão grave que o encerramento total da atividade chegou a estar em cima da mesa. A quota combinada de Portugal e Espanha nesse ano ficou-se pelas 10.000 toneladas.

Para os pescadores, foi um período de grandes dificuldades. Francisco Santos, mestre do Vitória Coentrão, uma das embarcações certificadas, recorda anos em que o trabalho durava apenas quatro ou cinco meses. “Não havia rendimentos extra, nem subsídios de lado nenhum. As empresas tiveram de apertar o cinto. Por fim, não conseguia trazer mais peixe e fui à falência“, conta.
A situação foi igualmente dramática para a indústria conserveira, pilar económico e cultural de várias cidades costeiras. Várias fábricas encerraram ou reduziram operações. Hoje, novas unidades estão a ser construídas em Portugal e Espanha.
Ciência, cooperação e muita paciência
A recuperação não foi espontânea. Portugal e Espanha desenvolveram um plano de gestão conjunto, baseado em parecer científico, com regras preventivas de controlo das capturas, períodos de defeso e quotas anuais ajustáveis. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) passou a contar com a colaboração ativa dos pescadores nas campanhas de amostragem biológica, abrindo um novo canal de partilha de dados sobre os cardumes.
“Quando os pescadores baseiam as suas capturas em pareceres científicos – e quando as organizações de produtores também colaboram – o resultado é um sucesso“, afirmou José Fernandes, ministro da Agricultura e Mar, citado no artigo do MSC Portugal.
A certificação foi reconquistada e é hoje válida para 317 embarcações que operam ao longo da costa ibérica, desde o Golfo da Biscaia até ao Estreito de Gibraltar, integradas em 15 organizações de produtores dos dois países. A quota portuguesa para 2025 é de 34.406 toneladas – um contraste marcante com as 10.000 toneladas combinadas de 2017.
O que diz o MSC – e o que ouvimos no Pegada Positiva
O MSC Portugal publicou recentemente um artigo de fundo sobre esta história de recuperação, com testemunhos de pescadores, conserveiros e especialistas. Rodrigo Sengo, responsável do Marine Stewardship Council em Portugal – que esteve recentemente em entrevista no podcast Pegada Positiva -, é uma das vozes que tem acompanhado de perto este percurso. No artigo, é Alberto Martín, diretor do Programa MSC para Espanha e Portugal, quem sublinha a dimensão da conquista: “A situação evidenciou a vulnerabilidade dos pescadores e a necessidade de trabalho em equipa e perseverança para alcançar uma pesca sustentável“.
Para os consumidores, o selo azul do MSC funciona como garantia de rastreabilidade e de boas práticas ao longo de toda a cadeia. “Para os consumidores de sardinha, o selo azul significa que o produto é apoiado por uma rede fiável de profissionais que trabalham para fazer as coisas da maneira certa“, explica Alberto Martín.
Desafios que não desaparecem com a certificação
A recuperação dos stocks não significa ausência de vulnerabilidades. A sardinha é um peixe pelágico de vida curta, muito sensível à temperatura da água e à disponibilidade de alimento – sobretudo na fase inicial de vida. As alterações climáticas estão a empurrar espécies como a sardinha europeia para norte, em direção ao Mar do Norte e até ao Mar Báltico, alterando a distribuição das populações e a estrutura dos ecossistemas marinhos.
“Cada ano é diferente. Não há dois anos iguais“, reconhece o mestre Santos. “Este ano foi fantástico para a sardinha, com boa qualidade e tamanho. Já no anterior, apesar de haver abundância, a qualidade era fraca“. A imprevisibilidade é inerente à atividade – e é precisamente por isso que a gestão adaptativa e baseada em ciência é insubstituível.
A prata do mar, agora com selo azul
A sardinha portuguesa é muito mais do que um recurso económico. É património gastronómico, é identidade, é festa. “As sardinhas têm uma ligação estreita com Portugal. Fazem parte da nossa cultura e da nossa vida. Não há casa portuguesa que não tenha sardinhas durante o verão“, afirma José Freitas, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe.
O ministro José Fernandes descreve-a como “um superalimento do Atlântico” – nutritiva, versátil, com valor económico, social e cultural. A certificação MSC acrescenta agora uma camada adicional: a da confiança sustentada em dados, em cooperação transfronteiriça e numa indústria que aprendeu, da forma mais dura, o que está em jogo.
À medida que a época de pesca arranca, a sardinha ibérica chega às bancas não apenas com o sabor de sempre – mas com uma história de resiliência que vale a pena conhecer.
