Florestas tropicais: entre a queda do desmatamento e o nascimento de um fundo histórico
22 de junho – Dia Mundial das Florestas Tropicais
As florestas tropicais cobrem menos de 10% da superfície terrestre. Mas regulam o clima do planeta inteiro. Produzem chuva. Armazenam carbono. Albergam mais de metade da biodiversidade do mundo. São o lar de centenas de povos indígenas e de milhões de espécies que a ciência ainda não catalogou. E estão, desde décadas, a ser destruídas. É por isso que a 22 de junho se celebra o Dia Mundial das Florestas Tropicais – uma data de balanço que, em 2026, tem tanto de esperança como de cautela.
A esperança vem dos dados. A desflorestação na Amazónia brasileira caiu 8,7% em 2025 face ao ano anterior, situando-se no nível mais baixo desde 2017, segundo o sistema de alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil. No Cerrado, a maior savana tropical do continente americano, a redução foi de 9%. São o terceiro e quarto anos consecutivos de descida – uma inversão de tendência que contrasta radicalmente com os valores do período Bolsonaro, quando a Amazónia perdeu mais de 10.000 quilómetros quadrados de floresta num único ano. No primeiro trimestre de 2026, a tendência de redução manteve-se, situando-se no segundo valor mais baixo de sempre para esse período.
A cautela vem do contexto. Mesmo com a descida, somando Amazónia e Cerrado, foram destruídos mais de 9.000 quilómetros quadrados de vegetação em 2025. A degradação florestal – que não é corte raso, mas perda gradual de qualidade da floresta, sobretudo por incêndios – está em tendência ascendente e afetou mais de 2.200 quilómetros quadrados só na Amazónia. E estudos publicados na revista científica Nature Communications revelam que a desflorestação já foi responsável por 74% do declínio das chuvas na estação seca na Amazónia nos últimos 35 anos, e por 16,5% do aumento médio de 2 graus Celsius na temperatura regional. A floresta está a alterar o seu próprio clima – e esse processo, se não for travado, pode ser irreversível.
A grande novidade de 2026 é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, em novembro de 2025, e já endossado por mais de 63 países. O mecanismo é inédito: em vez de doações, propõe um fundo de investimento global que remunera os países que mantêm as florestas tropicais em pé, a taxas de mercado, tornando a conservação florestal economicamente competitiva com o desmatamento. A COP30 mobilizou 6,7 mil milhões de dólares para o arranque do fundo. É uma ideia que os economistas do ambiente reclamavam há décadas: pagar aos países tropicais pelo serviço de ecossistema global que as suas florestas prestam a toda a humanidade.
Portugal não tem florestas tropicais no território continental, mas tem laços com países que as guardam – Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste. E tem responsabilidade de consumidor: soja, carne, óleo de palma e cacau – produtos cujas cadeias de abastecimento alimentam pressão sobre florestas tropicais – chegam aos supermercados portugueses. O Regulamento Europeu contra a Desflorestação, em implementação progressiva a partir de 2025, exige que as empresas provem que os seus produtos não contribuíram para o desmatamento. É um instrumento com dentes – se for aplicado com rigor.
O Dia Mundial das Florestas Tropicais de 2026 é uma data de viragem. Os dados melhoram. Os instrumentos financeiros começam a existir. A vontade política está, em vários países, no lugar certo. O que falta é velocidade – porque a floresta que se perde hoje não volta amanhã.

