17 medidas circulares podem reduzir o impacto climático da Europa em 22%… e poupar quase mil milhões de toneladas de CO2
A 19 de maio de 2026, a Agência Europeia do Ambiente publicou em simultâneo três avaliações sobre economia circular que constituem, em conjunto, a análise mais abrangente alguma vez produzida sobre o potencial da circularidade para os objetivos ambientais e climáticos da Europa. Os números centrais são reveladores: 17 medidas circulares podem reduzir o impacto climático da UE em 22%, a perda de biodiversidade em 19% e a poluição atmosférica em 25%. Mas a taxa de circularidade europeia está em apenas 11,8% — face a uma meta de 24% para 2030. E o défice de investimento para fechar essa diferença é de 82 mil milhões de euros por ano. Os relatórios chegam numa semana em que o relatório da Plastics Europe confirmou que a reciclagem de plásticos na Europa quase parou. A mensagem combinada é de urgência: a janela para agir está aberta, mas não ficará aberta indefinidamente.
A publicação simultânea de três avaliações de circularidade pela AEA em 19 de maio não foi acidental. O alinhamento deliberado dos três documentos – o briefing sobre os benefícios ambientais e climáticos da economia circular, o briefing sobre stocks de materiais, e o relatório sobre necessidades de investimento – constitui uma mensagem política integrada endereçada à Comissão Europeia, ao Conselho e ao Parlamento Europeu num momento crítico: quando o Circular Economy Act está em preparação para adoção no terceiro trimestre de 2026 e quando as negociações do quadro climático pós-2030 estão na fase final de consulta.
A mensagem central dos três documentos é simultaneamente otimista e alarmante. Otimista porque, pela primeira vez, a AEA consegue quantificar com robustez metodológica o potencial de redução de impacto ambiental da economia circular – e os números são muito maiores do que a maioria das políticas atuais antecipa. Alarmante porque a distância entre esse potencial e a trajetória atual é enorme, e o ritmo de investimento necessário para a percorrer está muito abaixo do que seria preciso.
Hans Bruyninckx, diretor executivo da AEA, enquadrou a publicação de forma direta: a economia circular não é apenas uma oportunidade ambiental – é uma oportunidade económica e estratégica. Melhorar a circularidade dos materiais usados na economia europeia reduziria a dependência de matérias-primas importadas, criaria novas atividades económicas e postos de trabalho, e tornaria a Europa mais resiliente face a perturbações das cadeias de abastecimento globais. A questão não é se vale a pena fazê-lo. É por que razão ainda não está a ser feito à escala necessária.
O primeiro briefing: 17 medidas, quase um milhar de milhões de toneladas de CO2
O briefing intitulado The Environmental and Climate Benefits of a Circular Economy modela o impacto de 17 medidas circulares específicas em quatro sistemas de provisão centrais para a economia europeia: alimentação, habitação, mobilidade e bens de consumo. A abordagem de pegada – que contabiliza os impactos tanto dentro como fora da UE, incluindo as emissões associadas às importações – é metodologicamente mais abrangente do que os estudos anteriores sobre o tema, o que torna os resultados comparáveis com as metas climáticas e ambientais europeias expressas em termos de impacto global.
Os três resultados centrais do briefing são expressivos. Em termos climáticos, as 17 medidas têm o potencial de reduzir o impacto da UE nas alterações climáticas em 22%, o equivalente a quase mil milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano – uma redução que, sozinha, representaria uma contribuição significativa para as metas de 2030 e 2040. Em termos de biodiversidade, a redução estimada do impacto da UE na perda de biodiversidade seria de 19% – um dado particularmente relevante num momento em que apenas 15% dos habitats europeus avaliados atingem um estado de conservação favorável. Em termos de poluição atmosférica, a redução do impacto em partículas finas seria de 25% – um número que, traduzido em termos de saúde pública, representa dezenas de milhares de mortes prematuras evitáveis por ano.
A dimensão de segurança estratégica dos materiais é igualmente destacada. As 17 medidas reduziriam a dependência europeia de minérios de alumínio, níquel e metais do grupo da platina produzidos noutras regiões do mundo em cerca de 20%, e de cobre em 12%. Num contexto em que a autonomia estratégica em materiais críticos se tornou uma prioridade de segurança nacional para a UE – evidenciada pela Lei das Matérias-Primas Críticas de 2023 e reforçada pela volatilidade das cadeias de abastecimento de 2025-2026 – este resultado posiciona a economia circular não apenas como política ambiental, mas como política industrial e de segurança.
Segundo briefing: os stocks de materiais que a Europa não está a aproveitar
O segundo briefing – Material Stocks in a Circular Economy – aborda uma dimensão frequentemente esquecida no debate sobre circularidade: os chamados stocks de materiais, ou seja, a enorme quantidade de materiais já incorporados em produtos de longa duração como edifícios, infraestruturas de transporte, veículos e maquinaria.
Os números de base são reveladores da escala do problema e da oportunidade. Cada europeu consome em média 14,4 toneladas de materiais por ano. A Europa depende de importações para uma fração significativa dos materiais de que necessita – incluindo metais críticos para a transição energética. E uma parte substancial dos materiais já em circulação na economia europeia está incorporada em produtos de vida longa que, quando chegam ao fim de vida, raramente são desmantelados de forma a recuperar os materiais com qualidade suficiente para reentrar no ciclo produtivo.
O briefing argumenta que melhorar a circularidade dos stocks de longa duração – nomeadamente edifícios, estradas, automóveis e maquinaria industrial – pode fornecer à economia europeia matérias-primas secundárias mais competitivas em custo do que as importadas. Esta é uma das premissas centrais do Circular Economy Act em preparação: criar as condições regulatórias e de mercado para que o material já existente na economia europeia seja tratado como um recurso estratégico, e não como um resíduo a gerir.
Terceiro relatório: 82 mil milhões de euros por ano em défice de investimento
O terceiro documento – Unlocking the Circular Economy: Investment Needs, Barriers and Enabling Conditions – é o mais operacional dos três e aquele com implicações mais diretas para a política financeira europeia. A sua conclusão central é que para cumprir os objetivos de circularidade existentes da UE, é necessário investimento adicional de aproximadamente 82 mil milhões de euros por ano até 2040. Este valor engloba investimento em infraestruturas de recolha e triagem de resíduos, em tecnologia de reciclagem mecânica e química, em design circular de produtos, em sistemas de reutilização e reparação, e em modelos de negócio circulares.
O relatório identifica as fases do ciclo de vida dos produtos onde o défice de investimento é mais pronunciado: o design do produto e as fases de fim de vida são as que mais carecem de atenção, com lacunas sectoriais mais notórias na construção, nos têxteis, e em baterias e veículos. Estes são precisamente os sectores onde a regulação europeia – do Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis ao PPWR, passando pelo Regulamento de Baterias – está a criar pressão crescente para a circularidade, mas onde o investimento privado ainda não está a responder à escala necessária.
O relatório é explícito sobre as barreiras que travam o investimento: os projetos circulares enfrentam dificuldades de acesso a financiamento porque os seus modelos de negócio são frequentemente considerados de maior risco pelos financiadores tradicionais; a rentabilidade dos projetos é frequentemente incerta porque os mercados de materiais secundários são voláteis e os preços dos materiais virgens não refletem os seus custos ambientais reais; e a falta de monitorização adequada dos fluxos financeiros para a circularidade torna difícil avaliar o retorno real do investimento e ajustar as políticas em função dos resultados. A recomendação é clara: é necessária ação política para melhorar o acesso a financiamento e a comerciabilidade dos projetos circulares.
NÚMEROS DOS TRÊS BRIEFINGS DA AEA (19 DE MAIO DE 2026)
17 medidas circulares modeladas em habitação, alimentação, mobilidade e bens de consumo podem reduzir: o impacto climático da UE em 22% (≈ 1 mil milhão de toneladas de CO2e/ano); a perda de biodiversidade em 19%; a poluição por partículas finas em 25%.
Segurança de materiais: as mesmas medidas reduziriam a dependência europeia de alumínio, níquel e metais do grupo da platina importados em ~20%, e de cobre em 12%.
Taxa de circularidade atual da UE: 11,8% de materiais reutilizados – face a uma meta de 24% para 2030. A taxa de circularidade de materiais aumentou apenas 1,5% entre 2010 e 2024.
Défice de investimento: ~82 mil milhões de euros por ano até 2040 para cumprir os objetivos circulares existentes. Sectores com maiores lacunas: construção, têxteis, baterias e veículos.
Alimentação e habitação representam 72% da pegada material da UE – e são os sistemas onde o investimento circular tem maior potencial de retorno ambiental e económico.
A economia circular poderia reduzir as emissões de GEE em 33% em média, segundo revisão de 131 artigos científicos publicados entre 2020 e 2025 – com variação de 2% a 99% dependendo da medida e do sector.
O que falta: do potencial à trajetória real
A distância entre o potencial documentado pelos três briefings e a trajetória atual da economia europeia é, em si mesma, um dado político de primeira importância. A taxa de circularidade da UE – a proporção de materiais reutilizados ou reciclados face ao total consumido – está em 11,8%, tendo aumentado apenas 1,5 pontos percentuais em catorze anos, entre 2010 e 2024. O objetivo do Clean Industrial Deal é aumentar esta taxa para 24% até 2030. A matemática é implacável: ao ritmo atual, a meta ficará muito aquém de ser atingida.
Este contexto é exatamente o que torna os briefings da AEA relevantes como instrumento político e não apenas como exercício académico. Ao quantificar os benefícios de 17 medidas específicas em sectores específicos, a AEA está a fornecer à Comissão Europeia e aos legisladores o mapa do que funciona – e a demonstrar que as políticas atuais, apesar do seu enquadramento ambicioso, não estão a produzir o ritmo de mudança necessário.
A ligação com o relatório da Plastics Europe publicado recentemente é direta e relevante. O colapso do crescimento da reciclagem de plásticos na Europa – de 13,6% para 1,2% em dois anos – é exatamente o tipo de sinal que os briefings da AEA identificam como resultado de barreiras de mercado não resolvidas: matérias-primas virgens importadas mais baratas, custos de energia industrial europeus demasiado elevados para a reciclagem, e ausência de sinais de mercado suficientemente fortes para o conteúdo reciclado. Os dados da AEA mostram o que é possível; os dados da Plastics Europe mostram o que está a acontecer. A distância entre os dois é o espaço onde a política tem de atuar.
O que Portugal tem a ganhar… e a perder
Para Portugal, os três briefings da AEA têm implicações práticas que vão além do interesse jornalístico. O país apresenta uma taxa de circularidade abaixo da média europeia – que já está, ela própria, muito aquém das metas. O sector da construção, identificado como um dos que mais carecem de investimento circular, é um dos maiores consumidores de materiais na economia portuguesa e tem uma pegada de carbono associada ao uso de betão, aço e alumínio que a abordagem circular poderia reduzir substancialmente. O sector alimentar – onde a alimentação e a habitação representam 72% da pegada material europeia – é central para a economia portuguesa, desde a produção agrícola à transformação e distribuição.
Há também uma dimensão de oportunidade industrial. Portugal tem competências em sectores como a cortiça, o papel, os têxteis e os resíduos orgânicos onde a transição circular pode criar vantagem competitiva se for bem executada. A cortiça é talvez o exemplo mais eloquente: um material de base natural, reciclável e com um ciclo de vida integrado na floresta mediterrânica, que já funciona segundo princípios circulares há décadas. É exatamente o tipo de sector que os briefings da AEA identificam como tendo maior potencial de retorno ambiental e económico per euro de investimento.
Os três relatórios da AEA chegam a Portugal num momento em que o sistema de depósito Volta acaba de arrancar, em que o Circular Economy Act está a ser preparado em Bruxelas, e em que o debate sobre a política ambiental europeia está mais intenso do que em qualquer momento da última década. O potencial existe, está documentado e é enorme. A questão – como sempre – é a vontade de o concretizar.
Fonte: Agência Europeia do Ambiente / ETC CE / Innovation News Network / IEU Monitoring

