As energias renováveis chegaram a 49% da capacidade elétrica mundial. Mas a corrida ainda não está ganha

Um relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), publicado no início de abril, confirmou que 2025 foi o ano com maior crescimento de renováveis alguma vez registado: 692 GW de nova capacidade instalada, um aumento de 15,5% face ao ano anterior. O mundo está mais perto do que nunca de uma maioria renovável – mas persistem desafios estruturais que podem travar a transição.

Em 2015, ano em que o Acordo de Paris foi assinado, a capacidade renovável global rondava os 1 800 GW. Uma década depois, esse valor triplicou: chegou a 5 149 GW no final de 2025, de acordo com o Renewable Capacity Statistics 2026 da IRENA. O crescimento é vertiginoso e real – não é um artefacto estatístico nem uma projeção otimista.

O solar fotovoltaico foi o motor do crescimento, responsável por 511 GW da nova capacidade instalada em 2025, o equivalente a cerca de 75% de todas as adições de renováveis. A energia eólica ficou em segundo lugar, com 159 GW. Juntas, as duas tecnologias representaram 96,8% de toda a nova capacidade renovável adicionada no ano. As restantes fontes – hídrica, geotérmica, marés – contribuíram de forma marginal para o crescimento, embora continuem a desempenhar um papel importante na base de fornecimento.

As renováveis representam agora 49% da capacidade elétrica global instalada – a um passo da paridade com as fontes não renováveis. Em termos de produção efetiva de eletricidade, o valor é inferior, porque solar e eólica são fontes intermitentes e a sua capacidade nominal não corresponde à produção contínua. Mas a trajetória é inequívoca.

Geografia do crescimento: concentração e assimetrias

Nem todos os países beneficiam igualmente deste crescimento. A China, os Estados Unidos e a União Europeia foram responsáveis por 550 GW dos 692 GW adicionados em 2025 – o que representa cerca de 80% do total. A China, em particular, continua a dominar largamente tanto a produção de painéis solares como a instalação de nova capacidade.

Em África, o crescimento foi de 11,3 GW em 2025, o que representa apenas 1,6% da nova capacidade global. O continente tem hoje uma capacidade total de 82 GW, com um aumento de 15,9% face ao ano anterior – o que é percentualmente significativo, mas absolutamente insuficiente para dar resposta às necessidades de um continente onde centenas de milhões de pessoas continuam sem acesso à eletricidade.

Esta assimetria geográfica é um dos maiores problemas da transição energética: os países que mais precisam de energia limpa são frequentemente os que menos capacidade têm para a financiar e instalar. O fosso entre países desenvolvidos e em desenvolvimento no acesso às renováveis não está a fechar ao ritmo necessário.

Contexto geopolítico: as renováveis como segurança energética

O relatório da IRENA foi publicado num momento de renovada tensão geopolítica. A escalada no Médio Oriente voltou a colocar em evidência a vulnerabilidade dos países que dependem do petróleo e do gás importados. A volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis tem um impacto direto na inflação, no crescimento económico e na estabilidade social.

O diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, foi explícito ao comentar os dados: os países que investiram na transição energética estão a atravessar esta crise com menos danos económicos, porque aumentaram a sua segurança energética, resiliência e competitividade. Um sistema energético mais descentralizado, com uma quota crescente de renováveis e mais atores de mercado, é estruturalmente mais resistente a choques externos.

É um argumento que vai além da questão ambiental – e que está a ter cada vez mais eco junto de governos e empresas que, até recentemente, olhavam para as renováveis principalmente pelo prisma do cumprimento de metas climáticas.

Os gargalos: redes, armazenamento e regulação

Apesar do crescimento recorde, o relatório da IRENA e a Agência Internacional de Energia (AIE) identificam gargalos estruturais que podem limitar o ritmo de expansão nos próximos anos. O principal é a capacidade das redes elétricas.

As redes foram desenhadas para um sistema de produção centralizada, com grandes centrais que produzem eletricidade de forma contínua e previsível. A integração massiva de solar e eólica – fontes intermitentes, distribuídas geograficamente e com picos de produção que nem sempre coincidem com os picos de consumo – exige uma adaptação profunda das redes. Isso implica maiores interligações entre regiões, expansão significativa da capacidade de armazenamento (baterias, hídrica de bombagem, hidrogénio verde) e maior flexibilidade da procura.

A AIE chegou a reduzir as suas previsões de crescimento renovável para 2025-2030 em cerca de 5%, citando precisamente estes constrangimentos de rede e quadros regulatórios desfavoráveis em vários países. A mensagem é clara: a tecnologia não é o problema. O problema é a infraestrutura e a regulação que ainda não acompanhou o ritmo da inovação.

O que isto significa para Portugal e para a Europa

Portugal tem sido um caso de estudo internacional na integração de renováveis. Com uma das maiores quotas de eletricidade de origem renovável da Europa – que já ultrapassou os 60% em vários anos recentes -, o país demonstrou que é possível combinar fiabilidade do sistema com elevada penetração de solar e eólico.

Mas mesmo Portugal enfrenta os desafios comuns: a necessidade de reforço e modernização das redes de distribuição, a aprovação e instalação de novos projetos de armazenamento, e a gestão da intermitência em anos de menor precipitação, que afeta a componente hídrica. A dependência da hídrica como principal fonte de regulação torna o sistema vulnerável às secas – um risco que as alterações climáticas estão a agravar.

A nível europeu, o pacote “Fit for 55” e o Plano REPowerEU definiram metas ambiciosas para 2030. A boa notícia é que a trajetória atual das renováveis é compatível com essas metas. A má notícia é que o ritmo de aprovação de novos projetos, de reforço das redes e de instalação de capacidade de armazenamento continua a ser um entrave significativo em muitos países membros.

O recorde de 2025 é motivo de otimismo. Mas a transição energética não está concluída. Está, no melhor dos casos, a meio caminho.

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