Portugal levado a tribunal pela UE por não transpor a diretiva das renováveis
Bruxelas exige sanções financeiras a Lisboa por incumprimento persistente das regras de aceleração da transição energética
A Comissão Europeia decidiu levar Portugal ao Tribunal de Justiça da União Europeia por não ter transposto para a legislação nacional a Diretiva 2023/2413, que estabelece as regras de aceleração da transição energética para fontes renováveis e desenvolvimento de energia limpa em todos os sectores da economia. A decisão foi anunciada na semana passada e coloca Portugal ao lado da Grécia e de Malta como os únicos Estados-membros ainda em situação de infração nesta matéria.
O prazo legal para a transposição da maioria das disposições desta diretiva expirou a 21 de Maio de 2025. Mais de um ano depois, Lisboa não notificou Bruxelas de quaisquer medidas nacionais que garantam a integração plena da norma no ordenamento jurídico português. Portugal já havia recebido uma carta de notificação para cumprir em Julho de 2025 e um parecer fundamentado em Dezembro do mesmo ano, sem que tenha havido resposta adequada.
A diretiva em causa, que altera a Diretiva 2018/2001, é considerada pela Comissão Europeia um pilar essencial para a competitividade europeia. O seu objetivo é acelerar a adoção de energias limpas nos sectores da indústria, dos transportes e dos edifícios, sendo que o objetivo vinculativo da União para 2030 é atingir pelo menos 42,5% de energia renovável, com ambição de chegar aos 45%.
Paradoxo desconcertante
O que torna esta situação particularmente desconcertante é o facto de Portugal ser, na prática, um dos países europeus com melhor desempenho em energias renováveis. Os dados da APREN para os primeiros dois meses de 2026 indicam que mais de 80% da eletricidade gerada no país teve origem em fontes limpas. No primeiro trimestre do ano, as renováveis foram responsáveis por 80,4% do consumo elétrico nacional, lideradas pela energia hídrica (38%) e pela eólica (31,9%). Portugal registou ainda uma redução de 54% no saldo importador, aproximando-se da autossuficiência energética.
Como é possível, então, que um país que bate recordes de produção renovável não tenha ainda transposto as regras europeias que precisamente visam promover essa mesma transição? A resposta reside nas complexidades burocráticas e políticas da transposição legislativa, que raramente acompanha o ritmo das transformações no terreno. Mas a justificação não serve para evitar as consequências: Bruxelas pede agora ao Tribunal de Justiça a imposição de sanções financeiras.
Em paralelo, a Comissão enviou um segundo parecer fundamentado a Lisboa por falhas na adoção das regras de configuração do mercado da eletricidade, que visam reforçar a proteção dos consumidores contra a volatilidade dos preços e garantir-lhes maior liberdade de escolha na assinatura de contratos.
O contexto da crise energética global
O momento não poderia ser mais relevante. A crise energética global que se intensificou no início de 2026, na sequência de tensões no Médio Oriente e do encerramento parcial do estreito de Ormuz, fez disparar os preços do petróleo e do gás. Neste cenário, a aposta portuguesa nas renováveis revelou-se estrategicamente acertada, amortecendo o impacto da volatilidade internacional. Mas ter bom desempenho prático sem enquadramento legal atualizado é um risco regulatório que Portugal não pode continuar a assumir.
O Governo aprovou, entretanto, um pacote de medidas estruturais para o sector energético, incluindo o reforço da produção renovável, a expansão do autoconsumo e mecanismos de estabilização de preços em cenários de crise. Estas iniciativas vão na direção certa, mas não substituem a transposição da diretiva europeia, que continua a ser uma obrigação legal por cumprir.
O que está em jogo
As sanções financeiras previstas em processos de infração da UE podem ser substanciais. O Tribunal de Justiça tem poderes para impor coimas avultadas e multas diárias enquanto o incumprimento se mantiver. Além do impacto financeiro direto, a situação projeta uma imagem negativa de Portugal junto das instituições europeias e dos investidores do sector das energias renováveis, que olham para a estabilidade regulatória como um fator decisivo na escolha dos mercados onde operam.
A questão coloca também em evidência uma tensão recorrente na governação da transição energética portuguesa: o país tem sistematicamente apostado na capacidade instalada de renováveis, com resultados notáveis, mas tem falhado no enquadramento normativo que deveria suportar e regulamentar essa transição. Transpor a diretiva não é apenas cumprir uma formalidade europeia – é construir o edifício legal que dá segurança, previsibilidade e equidade ao sistema energético nacional.
Este caso é um alerta claro: a sustentabilidade energética não se faz apenas com painéis solares e turbinas eólicas. Faz-se também com legislação atualizada, regulação robusta e compromisso efetivo com os quadros normativos que o país ajudou a construir a nível europeu.
Fontes
- Bruxelas leva Portugal a tribunal por falhas na promoção de energias renováveis – Jornal Público
- Renováveis amortecem choque energético: Portugal reduz exposição à crise global – WElectric
- Energia em Portugal: Renováveis batem recordes e dependência externa cai para metade – Portal Energia
- Aprovado quadro de medidas para situações de crise energética – XXV Governo Constitucional
- APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis

