Subproduto de lamas residuais pode apoiar agricultura sustentável, mas levanta riscos ecológicos
Estudo revela que um efluente líquido gerado no tratamento de lamas de águas residuais pode reciclar nutrientes úteis para a agricultura, mas também alterar de forma subtil os equilíbrios biológicos essenciais nos solos agrícolas.
Um subproduto líquido resultante do tratamento de lamas de águas residuais poderá tornar-se uma nova fonte de nutrientes para a agricultura sustentável, mas a sua utilização não está isenta de riscos. Um estudo publicado na revista Agricultural Ecology and Environment mostra que esta solução, apesar do seu potencial para a reciclagem de azoto e fósforo, pode interferir com processos ecológicos fundamentais na interface solo-água.
A investigação centrou-se na chamada fase aquosa da carbonização hidrotermal (HAP, na sigla inglesa), um líquido rico em matéria orgânica dissolvida e nutrientes, gerado durante a conversão de lamas de esgoto em produtos reutilizáveis. Se a fração sólida deste processo já é usada como combustível ou corretivo de solos, os impactos ecológicos da fração líquida permaneciam pouco estudados.
Para avaliar esses efeitos, investigadores analisaram a resposta do perifíton – um biofilme vivo composto por algas, bactérias e fungos – à exposição a diferentes concentrações de HAP. Este biofilme desempenha um papel crucial na ciclagem de nutrientes em ecossistemas agrícolas, como arrozais e canais de irrigação, funcionando como um verdadeiro “filtro biológico” entre o solo e a água.
Em microcosmos laboratoriais controlados, a equipa expôs comunidades de perifíton a níveis crescentes de HAP e monitorizou parâmetros como a qualidade da água, a remoção de nutrientes, a diversidade microbiana, as funções metabólicas e as interações entre organismos de diferentes níveis tróficos.
Os resultados revelaram uma resiliência inesperada: mesmo nas concentrações mais elevadas testadas, o perifíton conseguiu remover até 55% da carga orgânica e cerca de 35% do azoto amoniacal presente na água. No entanto, esta capacidade manteve-se à custa de uma simplificação progressiva do ecossistema.
À medida que a concentração de HAP aumentava, a estrutura da comunidade tornava-se menos complexa e multifuncional. Embora a diversidade global de microrganismos se mantivesse relativamente estável, a composição das comunidades bacterianas e eucarióticas alterou-se de forma significativa, reduzindo a diversidade de interações ecológicas que sustentam múltiplas funções em simultâneo.
Particularmente afetadas foram as ligações entre bactérias e organismos eucarióticos. As análises de redes ecológicas mostraram menos interações, menor conectividade e uma perda de complexidade estrutural, fatores diretamente associados à diminuição da multifuncionalidade do ecossistema – um indicador que integra ciclagem de nutrientes, produção de biomassa e atividade metabólica.
Apesar disso, os investigadores observaram mecanismos de compensação funcional. Alguns grupos microbianos reforçaram o seu papel na fixação de azoto e no metabolismo do carbono, permitindo que a remoção de nutrientes continuasse, mesmo sob stress ambiental. Esta adaptação evidencia simultaneamente a robustez e a vulnerabilidade destes sistemas biológicos.
O estudo deixa um aviso claro para a reutilização agrícola de subprodutos de lamas residuais: aplicações moderadas de HAP podem permitir a recuperação de nutrientes com impacto ecológico limitado, mas doses excessivas poderão comprometer a estabilidade e o funcionamento a longo prazo dos ecossistemas agrícolas.
Mais do que contabilizar nutrientes, concluem os autores, a economia circular aplicada à agricultura exige uma compreensão profunda de como os resíduos reaproveitados afetam as comunidades vivas que sustentam a saúde do solo e da água.

