#12 Pegada Semanal – 27 de março a 10 de abril de 2026
Boa tarde. Sejam bem-vindos a uma edição especial do Pegada Semanal. Sou a Alexandra Costa e, desta vez, estamos a cobrir duas semanas de notícias de uma só vez – de 27 de março até hoje, 10 de abril.
Há uma boa razão para isso: o mundo passou por quinze dias extraordinários. A guerra no Irão, que começou no final de fevereiro, chegou a um ponto de inflexão esta semana com um cessar-fogo frágil. Os mercados energéticos globais viveram um dos momentos mais dramáticos das últimas décadas. E a Europa, e Portugal em particular, tiveram de responder a pressões que não se viam desde a crise de 2022 após a invasão da Ucrânia.
Por isso, nesta edição vamos fazer uma viagem completa por tudo o que aconteceu: no mundo, na Europa e cá em casa. Há muito para contar, então vamos a isso.
A pior crise energética da história: quarenta dias que abalaram o planeta
Para perceber o que aconteceu nas últimas duas semanas, é preciso ter o quadro completo. Desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques ao Irão, que o Estreito de Ormuz – a passagem por onde fluía cerca de 20 por cento do petróleo mundial – ficou praticamente fechado. O resultado foi aquilo que o diretor executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, classificou como “o maior desafio de segurança energética da história“.
Nos primeiros dias de abril, o petróleo Brent chegou a negociar acima dos 120 dólares por barril – o valor mais alto desde 2022. E Birol tinha alertado para isso: disse publicamente que abril seria “muito pior do que março”, porque em março ainda chegavam aos portos alguns navios que tinham partido antes do início do conflito. Em abril, esses stocks começavam a esgotar-se.
A resposta da Agência Internacional de Energia foi sem precedentes: a 11 de março, os seus 32 países membros acordaram por unanimidade libertar 400 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas – a maior libertação coordenada de reservas de emergência da história da agência, muito acima dos 182 milhões de barris libertados em dois momentos distintos durante a crise de 2022. Os Estados Unidos sozinhos contribuíram com 172 milhões de barris das suas reservas estratégicas. Mas os analistas foram rápidos a relativizar o impacto: 400 milhões de barris equivalem a apenas 25 dias de perdas ao ritmo a que o Estreito estava fechado. Uma “penso rápido numa ferida grande“, como disse um estratega de energia citado pela Al Jazeera.
O cessar-fogo e a incerteza que ficou
A 8 de abril, chegou o que muitos esperavam, mas poucos acreditavam que viria tão cedo: os Estados Unidos e o Irão chegaram a um acordo para um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão. Trump anunciou o acordo poucas horas antes do prazo de um ultimato que tinha colocado a Teerão.
Os mercados reagiram de imediato. O Brent caiu 13 por cento, fixando-se em torno dos 95 dólares por barril. Os preços do gás natural em Amesterdão baixaram mais de 16 por cento. As bolsas europeias viveram o melhor dia desde março de 2022 – o Dax alemão subiu mais de cinco por cento, o CAC 40 francês quase quatro e meio por cento.
Mas a euforia foi rapidamente temperada pela realidade. No primeiro dia de tréguas, apenas quatro navios de carga seca conseguiram atravessar o Estreito – muito longe dos muitos que circulavam antes da guerra. O Irão começou a cobrar taxas superiores a um milhão de dólares por navio. Israel continuou a atacar o Líbano. O Irão acusou Washington de violar o cessar-fogo. E os analistas foram unânimes: mesmo que as tréguas se mantenham, os efeitos desta crise far-se-ão sentir durante meses, senão anos.
A instalação de Ras Laffan, no Qatar – a maior fábrica de gás natural liquefeito do mundo -, que foi atingida por drones iranianos no início de março, sofreu danos que, segundo estimativas, levarão três a cinco anos a ser totalmente reparados. O Qatar perdeu 17 por cento da sua capacidade de produção de GNL. E o Golfo Pérsico, que produz cerca de metade da ureia mundial e 30 por cento do amoníaco, ficou com as exportações de fertilizantes severamente perturbadas – o que, alertam economistas e especialistas agrícolas, pode traduzir-se em aumentos de preços dos alimentos que se prolongarão até 2027.
A lição desta crise é clara e dolorosa: o mundo continua perigosamente dependente de combustíveis fósseis que passam por um único ponto geográfico. E a transição energética não é apenas uma questão climática – é uma questão de segurança.
Resposta europeia: entre a urgência e a oportunidade
A Europa viveu estas duas semanas entre o combate a fogos imediatos e a tentativa de transformar a crise numa oportunidade. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi direto: “A melhor forma de ter um horizonte energético previsível e fiável é aumentar a produção doméstica de energia. Este é o único caminho para nos tornarmos autónomos e independentes“.
O comissário europeu para a Energia, Dan Jorgensen, a quem coube gerir a resposta imediata, teve uma semana de trabalho intenso. Pediu aos Estados-membros que começassem a encher as reservas de gás para o inverno o mais cedo possível, reduzindo o objetivo de enchimento de 90 para 80 por cento – uma forma de evitar a corrida de última hora ao mercado que faria os preços disparar ainda mais. No final de março, as reservas europeias de gás estavam em cerca de 30 por cento da capacidade, o nível mais baixo nos últimos anos, depois de um inverno particularmente rigoroso.
Os países europeus responderam de formas diferentes à crise. Espanha foi o mais agressivo, com um pacote de cinco mil milhões de euros que incluiu a descida do IVA sobre toda a energia de 21 para 10 por cento. A Itália ativou medidas temporárias de contenção de margens. A Alemanha propôs mecanismos de controlo de preços nos postos de abastecimento. O Banco Central Europeu adiou os cortes de taxas previstos, revendo em alta as previsões de inflação.
Mas houve também, em paralelo, legislação estrutural importante. A 27 de março, a Comissão Europeia publicou orientações para a descarbonização dos edifícios, um setor que representa uma fatia enorme das emissões europeias e que é, ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de transformar. O documento pretende apoiar autoridades e profissionais na eficiência energética e na circularidade da construção.
E os jovens europeus foram convidados a contribuir para o futuro. Também a 27 de março, foi aberto um processo de consulta pública dirigido a jovens entre os 15 e os 29 anos para ajudar a moldar a futura Lei da Economia Circular da UE – o chamado “Youth Check“. A lei, prevista para o terceiro trimestre de 2026, tem como objetivo duplicar a taxa de circularidade europeia – dos atuais 12 por cento para 24 por cento até 2030. Uma meta ambiciosa, num momento em que a crise energética reforça, ironicamente, a urgência de consumir menos e reutilizar mais.
Uma crise que acelerou o debate sobre a transição
A grande ironia destas semanas foi que a pior crise energética da história serviu também de argumento mais poderoso do que qualquer relatório científico para acelerar a transição energética. Na Europa, analistas e think tanks como o Bruegel foram inequívocos: a exposição da Europa a choques geopolíticos tem raízes na dependência estrutural de combustíveis fósseis importados. Mudar de Moscovo para Doha não resolveu o problema fundamental.
A boa notícia é que os dados confirmam que as alternativas estão a crescer. Em 2025, pela primeira vez na história, as energias renováveis produziram mais eletricidade na União Europeia do que os combustíveis fósseis. E em março foi lançada a consulta pública sobre o quadro das energias renováveis pós-2030, que vai definir as ambições europeias para a próxima década.
As renováveis como escudo: Portugal na crise com uma vantagem estrutural
Portugal entrou nesta crise com uma vantagem que muitos países europeus não têm: uma produção elétrica maioritariamente renovável. Nos primeiros três meses de 2026, as fontes renováveis foram responsáveis por 80,4 por cento de todo o consumo elétrico nacional – com a hídrica a liderar com 38 por cento e a eólica a contribuir com quase 32 por cento.
Esta proteção estrutural foi reconhecida pela própria ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho: o preço da eletricidade em Portugal está “relativamente protegido” porque cerca de 80 por cento da produção vem de renováveis. E o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, foi ainda mais direto, a falar a partir de Macau onde participou num fórum ambiental internacional: “Não temos petróleo, nem gás, mas há uma coisa que temos em abundância: temos sol, temos vento e temos água“.
Segundo a Associação Portuguesa de Energias Renováveis, a produção renovável nos primeiros dois meses do ano gerou uma poupança estimada de 703 milhões de euros face ao que teria custado produzir o mesmo com gás. Ou seja: a aposta nas renováveis está a pagar-se em tempo real, com a maior clareza possível.
O peso do gasóleo e do gás: as medidas do Governo
Dito isto, Portugal não ficou imune à crise. O gasóleo e o gás – que Portugal importa – subiram a par do resto do mundo. O Governo respondeu com um conjunto de medidas que, no total, rondam 150 milhões de euros por mês.
Logo a 6 de março, o executivo reduziu temporariamente o ISP – o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos – no gasóleo rodoviário, devolvendo aos consumidores a receita adicional de IVA gerada pela subida dos preços. Depois, a 27 de março, aprovou um segundo pacote de medidas para o período de 1 de abril a 30 de junho: mais dez cêntimos por litro no gasóleo profissional para transportes pesados e autocarros, até um limite de 15 mil litros; e apoios extraordinários aos setores agrícola, florestal, das pescas e aquicultura, também no valor de dez cêntimos por litro no gasóleo colorido.
A 8 de abril, o Parlamento aprovou por unanimidade a proposta do Governo para descer temporariamente os limites mínimos do ISP até 30 de junho. Um sinal de que, na emergência, o consenso político consegue chegar onde habitualmente demora mais tempo.
Mas houve também a tentação de ir mais longe. A ministra Graça Carvalho chegou a admitir que Portugal estava perto dos critérios para declarar uma situação de crise energética no gás natural – o que abriria a possibilidade de limitar preços. A posição foi clarificada horas depois: a situação no gás é mais grave do que na eletricidade, mas os critérios europeus não estavam ainda formalmente atingidos. Em Bruxelas, o comissário Dombrovskis reconheceu que Portugal tem “margem de manobra orçamental” para ir mais longe se necessário, citando o excedente orçamental do ano passado.
A pressão na mobilidade urbana e uma nota de humor involuntário
A subida dos combustíveis teve efeitos concretos no dia a dia dos portugueses. Cerca de 1.500 veículos de transporte em veículo de uso exclusivo do condutor – os chamados TVDE – pararam em Lisboa e no Porto, por os motoristas considerarem as margens inviáveis com os preços do gasóleo. Os ambientalistas aproveitaram o momento para pedir ao Metro de Lisboa que passasse a funcionar a partir das 5h30, de forma a oferecer uma alternativa acessível a quem normalmente recorre ao carro para chegar ao trabalho mais cedo.
E a botija de gás? A Anarec – a associação dos revendedores de combustíveis – alertou que o preço da botija de gás poderia chegar aos 15 euros em abril. Um número que soou a alarme em muitos lares portugueses.
A lição que esta crise não deve desperdiçar
Antes de terminar, um momento de perspetiva mais larga. O que aconteceu nestas duas semanas – e nas seis que as precederam – não foi apenas uma crise. Foi um teste de stress ao modelo energético global. E o resultado foi inequívoco: a dependência de combustíveis fósseis que passam por um único ponto geográfico é uma vulnerabilidade sistémica que nenhum país, por mais rico que seja, pode ignorar.
A boa notícia é que a solução já existe e está a ser implementada – ainda que de forma desigual e, em muitos lugares, demasiado lenta. As renováveis são domésticas, são previsíveis e não fecham por causa de uma guerra a milhares de quilómetros. Portugal percebeu isso mais cedo do que a maioria. A crise atual é mais um argumento para não abrandar o ritmo.
Há algo de paradoxal neste momento: a maior crise energética da história pode vir a ser o maior catalisador da transição energética. Se os governos aproveitarem a oportunidade – e não voltarem simplesmente ao status quo assim que os preços baixarem – este momento pode ser recordado como um ponto de viragem.
Ou não. Depende das escolhas que se fizerem nas próximas semanas e meses. E isso, como sempre, é uma questão política.
E é assim que termina esta edição especial do Pegada Semanal – uma edição de duas semanas que valeu por dez. Foi uma quinzena em que o planeta sentiu, de forma muito concreta, o custo da dependência dos combustíveis fósseis. E em que Portugal mostrou que a aposta nas renováveis não é apenas uma questão ambiental – é uma questão de soberania e de proteção das famílias.
Na próxima sexta-feira voltamos com o ritmo habitual. Se gostaram deste episódio, partilhem com alguém que precise de perceber o que está a acontecer. Eu sou a Alexandra Costa. Até breve.

