As florestas de África deixaram de absorver carbono e passaram a emitir. O planeta perdeu um dos seus maiores aliados climáticos
Um estudo publicado a 13 de abril na revista Scientific Reports, liderado pela Universidade de Leicester, revelou que as florestas africanas inverteram o seu papel no ciclo do carbono após 2010: de sumidouros passaram a fontes líquidas de emissões. A descoberta chega num momento crítico para a política climática global e obriga a rever os cenários de descarbonização.
Durante décadas, as florestas africanas foram tratadas como um dos grandes pilares do sistema de regulação climática planetária. Vastas extensões de floresta tropical húmida, savana arbórea e floresta densa absorviam centenas de milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, compensando parcialmente as emissões produzidas pela queima de combustíveis fósseis em todo o mundo. Era um serviço prestado silenciosamente – e gratuitamente – ao resto do planeta.
Mas esse papel terminou. Segundo os dados recolhidos por satélite e analisados pela equipa de investigação internacional liderada pelo professor Heiko Balzter, do Instituto de Futuros Ambientais da Universidade de Leicester, as florestas africanas começaram a emitir mais carbono do que absorvem a partir de 2010. Entre 2010 e 2017, o continente perdeu cerca de 106 mil milhões de quilogramas de biomassa florestal por ano – o equivalente, em peso, a 106 milhões de automóveis.
As maiores perdas verificaram-se nas florestas tropicais húmidas de folha larga, especialmente na República Democrática do Congo, em Madagáscar e em partes da África Ocidental. Algumas regiões de savana registaram crescimento arbustivo, mas os ganhos foram insuficientes para compensar as perdas nas florestas densas.
Como se chegou a esta conclusão
Para chegar a estas conclusões, os investigadores combinaram dados do instrumento laser GEDI da NASA com imagens de radar dos satélites ALOS japoneses, técnicas de aprendizagem automática e milhares de medições de campo. O resultado é o mapa mais detalhado até hoje das variações de biomassa em todo o continente africano, capturando padrões de desflorestação à escala local ao longo de uma década completa.
A metodologia é robusta e inovadora. Ao analisar a biomassa acima do solo – a quantidade de carbono armazenada em árvores e outra vegetação – os investigadores conseguiram quantificar não apenas as perdas, mas também identificar os locais e períodos em que ocorreram, distinguindo padrões entre diferentes ecossistemas e sub-regiões.
As causas: desflorestação, degradação e alterações climáticas
As causas desta inversão são múltiplas e interligadas. A desflorestação acelerada nas florestas tropicais, impulsionada pela expansão agrícola, pela extração de madeira e pela mineração, removeu diretamente a biomassa que armazenava carbono. Mas a degradação florestal – a perda gradual de qualidade e densidade das florestas sem corte total – foi igualmente determinante.
O aquecimento global agravou o quadro. Temperaturas mais elevadas aumentam a taxa de respiração das plantas, que libertam CO2, e reduzem a eficiência fotossintética em períodos de stress hídrico. As secas mais frequentes e intensas afetam diretamente a vitalidade das florestas, tornando-as menos eficientes como sumidouros e mais vulneráveis a incêndios.
A desflorestação em África tem características específicas que a tornam difícil de travar. Ao contrário do Brasil, onde existe uma forte pressão mediática e mecanismos de monitorização relativamente desenvolvidos, a perda florestal em África é frequentemente fragmentada, dispersa e associada a necessidades de subsistência de populações rurais pobres, além de grandes projetos de agronegócio com menor visibilidade internacional.
Implicações para o Acordo de Paris
As consequências desta inversão para os objetivos climáticos globais são graves. Os modelos climáticos que sustentam os cenários do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) assumem que as florestas tropicais continuarão a atuar como sumidouros de carbono ao longo deste século. Se África – que alberga a segunda maior floresta tropical do mundo, a Bacia do Congo – se tornou uma fonte líquida de emissões, esses cenários têm de ser corrigidos.
“Este é um alerta crítico para a política climática global. Se as florestas de África já não absorvem carbono, isso significa que outras regiões e o mundo como um todo precisarão de cortar as emissões de gases com efeito de estufa ainda mais profundamente para se manterem dentro do objetivo dos 2ºC do Acordo de Paris”, alertou o professor Balzter.
O estudo chega poucos meses após a COP30, realizada em Belém, no Brasil, onde foi lançada a Tropical Forest Forever Facility (TFFF), um fundo com o objetivo de mobilizar até 125 mil milhões de dólares para pagar aos países que preservam as suas florestas tropicais. Portugal é um dos países fundadores do mecanismo. A iniciativa conta já com o endosso de 53 países e compromissos financeiros que ultrapassam os 6,7 mil milhões de dólares, mas está muito aquém das necessidades reais.
O que pode ser feito
A coautora do estudo, Nezha Acil, identificou as medidas que podem ajudar a inverter a tendência: uma governação florestal mais robusta, aplicação efetiva da lei contra a exploração ilegal de madeira e programas de restauração em grande escala. A iniciativa AFR100, que visa restaurar 100 milhões de hectares de paisagens africanas até 2030, é apontada como um exemplo do que é possível.
Mas os especialistas são unânimes: sem financiamento climático sustentável para África, sem transferência de tecnologia e sem um compromisso político real dos países desenvolvidos – que beneficiaram durante décadas do “serviço” prestado pelas florestas africanas -, a tendência dificilmente se inverterá. O continente que menos contribuiu para as alterações climáticas está a pagar um preço desproporcionado pelas suas consequências.
A pergunta que o estudo coloca, sem que haja ainda resposta satisfatória, é direta: se já perdemos um dos maiores aliados naturais na luta contra as alterações climáticas, que margem de manobra nos resta?
Fontes utilizadas:
- Balzter, H. et al. (2026). Africa’s forests have flipped from carbon sink to carbon source. Scientific Reports. University of Leicester / National Centre for Earth Observation. Publicado a 13 de abril de 2026.
- ScienceDaily (13 abril 2026): https://www.sciencedaily.com/releases/2026/04/260413043135.htm
- COP30 Presidency / TFFF (6 novembro 2025): Over USD 5.5 billion Announced for Tropical Forest Forever Facility as 53 Countries Endorse the Historic TFFF Launch Declaration. https://cop30.br/en/news-about-cop30/over-usd-5-5-billion-announced-for-tropical-forest-forever-facility
- Project Drawdown (dezembro 2025): What to know about the Tropical Forest Forever Facility from COP30. https://drawdown.org/insights/what-to-know-about-the-tropical-forest-forever-facility-from-cop30

