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Energia solar em Portugal: um recurso que ainda não usámos a sério

Com 2.800 horas de sol por ano, Portugal tem das melhores condições da Europa para a geração fotovoltaica… e ainda está longe do seu potencial

Portugal recebe mais energia solar por metro quadrado do que qualquer outro país da Europa continental. Com uma média de 2.800 horas de sol por ano no Sul do país – mais do dobro dos países do norte europeu que lideram a instalação de painéis fotovoltaicos – o potencial solar português é, literalmente, ilimitado à escala das necessidades humanas. E, no entanto, durante décadas, este recurso foi largamente ignorado.

A viragem aconteceu na segunda metade da década de 2010, acelerada pela queda vertiginosa dos custos da tecnologia fotovoltaica – uma redução de mais de 90% em dez anos, tornando o solar a fonte de eletricidade mais barata da história em muitos contextos. Portugal passou de ter praticamente nenhuma capacidade solar instalada para se tornar, em poucos anos, um dos países europeus com maior penetração de renováveis no seu mix elétrico.

Em 2023, Portugal produziu mais de 60% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, com o solar a contribuir de forma crescente. Houve períodos em que a totalidade da eletricidade consumida no país foi gerada por renováveis: hídrica, eólica e solar combinadas. O objetivo de descarbonizar o setor elétrico antes de 2040 parece, pela primeira vez, concretamente alcançável.

Mas o potencial solar está muito longe de estar esgotado. No segmento do autoconsumo – painéis instalados em habitações, edifícios de serviços ou indústrias para consumo próprio – Portugal ainda está muito aquém do que seria possível. A simplificação burocrática levada a cabo nos últimos anos facilitou os processos de licenciamento, mas o investimento inicial continua a ser uma barreira para muitas famílias e pequenas empresas. Os programas de apoio europeus, nomeadamente através do Plano de Recuperação e Resiliência, têm procurado endereçar este obstáculo.

As comunidades de energia renovável – grupos de cidadãos que instalam e partilham coletivamente produção solar – são outro mecanismo com enorme potencial democratizador. Permitem que famílias sem telhado adequado, em apartamentos ou em habitações arrendadas, possam beneficiar do solar. Em Portugal, o quadro legal para estas comunidades está a ser progressivamente desenvolvido, mas a implementação prática ainda enfrenta obstáculos administrativos.

O armazenamento de energia é o próximo capítulo desta história. Os painéis solares produzem quando o sol brilha – nem sempre coincidente com os momentos de maior consumo. As baterias domésticas e industriais, cujos custos estão também em queda acelerada, permitem guardar o excesso de produção para usar à noite ou em dias nublados. A combinação solar mais armazenamento promete transformar radicalmente a relação das famílias com a eletricidade: de consumidores passivos a produtores ativos da sua própria energia.

Portugal tem o sol. Tem a tecnologia. Tem os instrumentos de política pública. O que falta, em muitos casos, é a escala e a velocidade de implementação. Num país que importa quase toda a sua energia fóssil, cada quilowatt-hora produzido pelo sol é também um passo em direção à soberania energética. Isso não é apenas uma questão ambiental. É também uma questão estratégica, económica e, numa era de geopolítica energética volátil, de segurança nacional.

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