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Os trópicos são o futuro: biodiversidade, injustiça climática e a lusofonia no centro do mundo

29 de junho – Dia Internacional dos Trópicos

Quarenta por cento da superfície da Terra. Oitenta por cento da biodiversidade mundial. Mais de metade dos recursos hídricos renováveis do planeta. Noventa e cinco por cento das florestas de mangal. E a maioria das pessoas que mais vão sofrer com as alterações climáticas – sendo as menos responsáveis por as ter causado. Esta é a zona intertropical, celebrada a 29 de junho no Dia Internacional dos Trópicos, proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2016. E este é o paradoxo central que esta data convida a confrontar.

Os países tropicais contribuíram historicamente com uma fração mínima das emissões de gases com efeito de estufa acumuladas na atmosfera desde a revolução industrial. Mas serão desproporcionalmente atingidos pelas suas consequências. O aumento da frequência e da intensidade de ciclones, cheias, secas e vagas de calor extremo nas regiões tropicais é já uma realidade documentada – e vai agravar-se. Segundo as Nações Unidas, quase metade da população tropical é considerada vulnerável ao stress hídrico. Até 2050, os trópicos albergarão a maioria da população mundial e dois terços das crianças do mundo. O futuro da humanidade decide-se, em grande medida, na faixa entre os dois trópicos.

Em novembro de 2025, a COP30 decorreu pela primeira vez no coração de uma floresta tropical – em Belém, no Pará, no Brasil. O simbolismo não era acidental: discutir o futuro do clima dentro da Amazónia, e não numa sala de conferências europeia ou árabe, foi uma afirmação política de que os trópicos já não são apenas tema de debate – são a sede do debate. O Pacto de Belém, aprovado por 195 países, incluiu compromissos sobre florestas tropicais, financiamento da adaptação e reconhecimento dos povos indígenas como guardiões do ecossistema mais biodiverso do planeta. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre – com 6,7 mil milhões de dólares mobilizados – é o instrumento financeiro mais concreto que o mundo já criou para valorizar a floresta em pé.

Para Portugal, o Dia Internacional dos Trópicos não é uma data sobre um lugar distante. É uma data sobre a lusofonia. O Brasil é a maior economia tropical do mundo e guarda a maior floresta tropical do planeta. Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe estão entre os países mais vulneráveis às alterações climáticas na África subsariana. Timor-Leste, no Sudeste Asiático, enfrenta o duplo desafio da pobreza e da exposição a fenómenos climáticos extremos. Cabo Verde, arquipélago atlântico de clima semiárido, vive já os efeitos da erosão costeira e da insegurança hídrica. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa reúne um conjunto de nações cujo futuro está profundamente marcado pela crise climática – e onde Portugal pode e deve ter um papel ativo na cooperação para o desenvolvimento sustentável.

A biodiversidade tropical é também um recurso que toda a humanidade utiliza – em medicamentos, em alimentos, em biotecnologia – mas cujos benefícios raramente ficam nas comunidades que a custodiam. O Protocolo de Nagoia, no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica, estabelece mecanismos de repartição justa de benefícios derivados de recursos genéticos. A sua implementação plena continua lenta e desigual – mas a pressão da sociedade civil e de organizações científicas está a crescer.

Neste 29 de junho, a mensagem do Dia Internacional dos Trópicos é a mesma de sempre – e cada ano mais urgente: as regiões tropicais não são apenas um reservatório de beleza natural ou matéria-prima para o mundo desenvolvido. São a espinha dorsal do clima global, o maior banco de biodiversidade da Terra e o lar de mais de metade da humanidade. Tratá-las com a seriedade que merecem não é altruísmo. É sobrevivência coletiva.

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