Electrify Now: a maior coligação de eletrificação da história quer passar de 21% para 35% em dez anos
A 23 de junho de 2026, na Semana de Ação Climática de Londres, governos, empresas e organizações internacionais lançaram o Electrify Now – a maior plataforma global de eletrificação alguma vez criada. A meta é ambiciosa e concreta: passar a quota de eletricidade no consumo final de energia global de 21% para 35% até 2035, a um ritmo quatro vezes mais rápido que o atual. O lançamento foi presidido pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, e conta com a Comissão Europeia, o Brasil (presidência da COP30), a Turquia e a Austrália (presidência da COP31), a Etiópia (presidência da COP32), o Canadá, as Filipinas, a Coreia do Sul, o Reino Unido, a IEA e a IRENA como membros fundadores. Mais de 40 organizações internacionais subscreveram a iniciativa. E o argumento central mudou: a eletrificação já não é apenas uma resposta climática. É uma estratégia de segurança energética, de competitividade económica e de resiliência face às crises de combustíveis fósseis.

O Electrify Now não nasceu apenas da urgência climática. Nasceu também – e talvez sobretudo – da segunda grande crise energética em quatro anos. Em 2022, a invasão russa da Ucrânia expôs a vulnerabilidade europeia à dependência de gás importado e desencadeou uma crise de preços que custou às famílias e às empresas europeias centenas de mil milhões de euros. Em 2025-2026, a guerra no Irão e a perturbação dos mercados globais de petróleo e de gás natural liquefeito reproduziram o mesmo padrão, com o barril de crude a subir acima dos 120 dólares antes de recuar parcialmente após o cessar-fogo de abril.
Bruce Douglas, diretor executivo da Global Renewables Alliance, foi direto na formulação que percorreu todo o evento de Londres: estamos a enfrentar a nossa segunda grande crise energética em apenas quatro anos. Nunca houve um momento mais urgente para mudar para a eletrificação renovável. A crise atual do petróleo e do gás pode custar às famílias, às empresas e aos governos até um bilião de dólares. A eletrificação apresenta uma alternativa clara, uma alternativa que não pode ser perturbada por guerras estrangeiras, que não está sujeita a choques globais, porque é produzida localmente.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, enquadrou o mesmo argumento nos termos que a instituição tem preferido: a dependência de combustíveis fósseis importados e voláteis deixa as nossas economias expostas e os nossos cidadãos a pagar o preço. A eletrificação representa uma mudança da dependência para a resiliência. A frase resume uma transformação na forma como a Europa – e crescentemente o mundo – justifica o investimento em renováveis e em eletrificação: já não apenas como resposta à crise climática, mas como imperativo de segurança nacional e de competitividade industrial.
O que é o Electrify Now, e o que se compromete a fazer
O Electrify Now é uma plataforma multianual de carácter aberto – não é um tratado vinculativo nem uma organização intergovernamental formal, mas uma coligação de ambição que funciona por adesão voluntária e por compromisso político. A sua arquitetura é semelhante à da Glasgow Breakthroughs Initiative lançada na COP26 ou à Powering Past Coal Alliance: governos, empresas e organizações internacionais subscrevem uma visão partilhada e comprometem-se a avançar, individualmente e em conjunto, em direção a metas comuns.
A meta central – 35% de eletricidade no consumo final de energia global até 2035 – é a mesma que a presidência da COP31 apresentou em Bona como o “35×35 Electrification Target”, conforme o GreenOcean noticiou na semana passada. A convergência não é coincidência: o Electrify Now foi lançado com o apoio explícito das presidências das COP30, COP31 e COP32, o que lhe confere uma continuidade política que ultrapassa qualquer presidência individual e ancora a meta no processo multilateral da UNFCCC.
Os três eixos de ação da plataforma são a cooperação internacional – através de intercâmbios de experiência e coligações de ambição -, a mobilização de investimento e financiamento à escala – usando financiamento público para atrair capital privado -, e o apoio ao planeamento de eletrificação nos países em desenvolvimento e emergentes, onde a capacidade técnica é frequentemente o primeiro obstáculo. A iniciativa é explicitamente aberta a todos os países, financiadores, empresas e organizações que queiram participar, um sinal de que o Electrify Now quer ser uma coligação de massa, não um clube fechado de potências económicas.
Os números que justificam a urgência: 21% e a lacuna de eletrificação
A eletricidade representa hoje cerca de 21% do consumo final de energia global, uma quota que, apesar do crescimento acelerado das renováveis na produção elétrica, continua a crescer mais lentamente do que seria necessário para uma descarbonização efetiva. O problema é estrutural: mesmo que toda a eletricidade produzida no mundo seja renovável, isso só cobre um quinto das necessidades energéticas da economia global. Os restantes quatro quintos – calor industrial, transportes, aquecimento de edifícios, processos agrícolas – continuam amplamente dependentes de combustíveis fósseis.
Dave Jones, cofundador do think tank Ember, colocou a questão num quadro que clarifica o que está efetivamente em jogo: até três quartos da procura energética global pode já ser eletrificada com tecnologias disponíveis hoje. A inovação foi enorme, e os preços e a qualidade destes produtos são irreconhecíveis comparados com os da última crise energética global em 2022. A economia de fazer a mudança nunca foi tão favorável. A eletrificação não é um problema de tecnologia, é um problema de implantação.
A eficiência é o argumento económico mais poderoso para acelerar a eletrificação. Luke Menzel, diretor executivo do Energy Efficiency Council da Austrália, sublinha que a eletrificação é em média três vezes mais eficiente em termos energéticos do que a energia baseada em combustão. Eletrificar os transportes, o aquecimento e o arrefecimento não apenas substitui combustíveis fósseis, reduz o volume total de energia necessário para prestar os mesmos serviços. Uma casa aquecida por uma bomba de calor elétrica pode consumir três a quatro vezes menos energia primária do que a mesma casa aquecida por uma caldeira a gás. Esta eficiência sistémica é o que permite que a procura de eletricidade cresça ao mesmo tempo que a procura de energia primária total diminui.
Dimensão empresarial: 91% dos líderes empresariais globais já perceberam
Um dos dados mais expressivos citados no lançamento do Electrify Now é o resultado de um inquérito recente a líderes empresariais globais: 91% identificam a eletrificação como fundamental para reforçar a segurança energética e a resiliência, e 82% querem que o seu país seja alimentado principalmente por eletricidade renovável para ajudar a afastar-se dos combustíveis fósseis. São números que refletem uma mudança de perceção no mundo empresarial que a crise de 2022-2026 acelerou: as empresas que dependem de energia cara e volátil de origem fóssil são empresas com risco operacional sistémico.
María Mendiluce, diretora executiva da We Mean Business Coalition, descreveu esta mudança com uma formulação que vai além da retórica de sustentabilidade: estamos a testemunhar o início de uma transformação económica profunda. A próxima era de crescimento será construída sobre a eletricidade. As empresas já estão a investir porque veem a eletrificação como a base de operações mais competitivas e resilientes. Isto é muito mais do que substituir uma tecnologia por outra. É sobre reconfigurar economias para as indústrias do futuro. Os países que reconhecerem esta mudança e criarem as condições para que as empresas invistam irão moldar os empregos, as indústrias e a prosperidade das próximas décadas.
Esta lógica empresarial alinha-se com o que a Comissão Europeia tem vindo a construir com o Clean Industrial Deal e o Affordable Energy Action Plan – que introduziu como indicador-chave de desempenho a quota de eletricidade no consumo final de energia, com 32% até 2030 como referência europeia. O Electrify Now coloca este objetivo europeu num enquadramento global, tornando-o parte de uma coligação internacional que dá à meta europeia uma dimensão de liderança – e de legitimidade – que uma política puramente interna não conseguiria ter.
Plano de Eletrificação europeu de julho: o instrumento que operacionaliza a visão
O Electrify Now tem em Bruxelas um instrumento de implementação concreto que chegará em julho de 2026: o Plano de Eletrificação da Comissão Europeia, anunciado no Clean Industrial Deal e no Affordable Energy Action Plan e previsto para ser apresentado neste mês. O plano deverá detalhar como a União Europeia vai acelerar a eletrificação nos transportes, na indústria e nos edifícios de forma custo-efetivo e compatível com a estabilidade do sistema energético.
O contexto em que o plano chega é o de uma Europa que, em 2024, já gerou 47,5% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis, mas onde a eletricidade ainda representa apenas 23% do consumo final de energia. A distância entre estes dois números captura exatamente o desafio da eletrificação: a produção de energia limpa está a crescer rapidamente, mas a substituição dos combustíveis fósseis nos usos finais – carros, caldeiras, fornos industriais, processos térmicos – avança a um ritmo muito mais lento.
A revisão do EU ETS prevista para julho – que o GreenOcean cobriu em detalhe na semana passada – é o outro instrumento que chegará em simultâneo. Os dois documentos formam um par: o Plano de Eletrificação define onde e como a eletrificação deve acontecer; a revisão do ETS cria o sinal de preço de carbono que torna essa eletrificação economicamente racional para as empresas que ainda estão a ponderar o investimento. Juntos, devem constituir a maior atualização da política de energia e clima europeia desde o pacote Fit for 55.
O que significa para Portugal
Portugal chega ao Electrify Now numa posição que poucos países europeus podem reivindicar: com mais de 80% da eletricidade já produzida a partir de fontes renováveis em 2025, o país já completou uma parte substancial da transição elétrica que a coligação quer escalar globalmente. A questão portuguesa é precisamente a que o Electrify Now coloca ao mundo: como levar esta eletricidade limpa para os usos finais que ainda dependem de combustíveis fósseis – os carros, as caldeiras a gás, os processos industriais.
As políticas europeias que chegam em julho – o Plano de Electrificação e a revisão do ETS – terão impacto direto em Portugal em três frentes. Nos transportes, a aceleração da eletrificação da frota de automóveis particulares e comerciais, complementada pela expansão das infraestruturas de carregamento. Nos edifícios, a substituição progressiva de caldeiras a gás por bombas de calor, num parque habitacional que é dos mais ineficientes da Europa Ocidental e que o ETS2 irá progressivamente encarecer manter a combustível fóssil. Na indústria, onde sectores como o cimento, o vidro, a cerâmica e a pasta de papel terão de encontrar alternativas de calor de processo que o Leilão de Calor do Fundo de Inovação começou a endereçar com os três projetos portugueses selecionados.
O Electrify Now é, em última análise, o reconhecimento internacional de que a eletrificação é a convergência entre a resposta climática, a segurança energética e a competitividade económica. Para Portugal, um país que depende de importações de combustíveis fósseis para cobrir a fração da sua energia que ainda não é elétrica, aderir a esta coligação não é apenas um gesto diplomático. É uma declaração de que o interesse nacional e o interesse climático apontam na mesma direção – e que a velocidade de execução é o que determina se Portugal captura as oportunidades desta transição ou apenas sofre os seus custos.
Fonte: Comissão Europeia / E3G / Global Renewables Alliance / We Mean Business Coalition / IEA / IRENA / IndexBox
