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Calor extremo e impreparação: o alerta europeu para um verão sem rede de segurança

O Conselho Científico Europeu do Clima publicou em Fevereiro um relatório que deixa pouca margem para conforto: a Europa aquece ao dobro da média global, em 2025 morreram mais de 24.000 pessoas por ondas de calor em 854 cidades europeias, e os sistemas de saúde continuam a tratar a preparação para o calor extremo como um evento de exceção em vez de uma realidade permanente. O verão de 2026 está à porta.

O relatório do Conselho Científico Europeu do Clima, baseado nos dados mais recentes do Copernicus Climate Change Service, é explícito: os últimos 11 anos (2015-2025) foram os 11 mais quentes desde que há registos. A Europa atingiu em 2024 uma temperatura média quinquenal 2,4 graus acima dos níveis pré-industriais – e a taxa de aquecimento está a acelerar desde 1980. Em 2025, a Europa registou o Junho mais quente de sempre, com análise científica a atribuir 68% de mais de 24.000 mortes por calor em cidades europeias diretamente à diferença de temperatura causada pelas alterações climáticas.

As projeções não deixam esperança de normalização. Com as políticas atuais, há mais de 90% de probabilidade de o aquecimento global superar 1,5 graus acima dos níveis pré-industriais antes de 2050. No mesmo cenário, existe uma probabilidade de um em três de ultrapassar os 2 graus. Os impactos já visíveis – ondas de calor mais frequentes e severas, incêndios de grande escala, cheias devastadoras – tendem a intensificar-se.

Com ondas de calor mais severas previstas nos próximos anos e um potencial novo El Nino a testar sistemas despreparados, a prioridade e passar da resposta de emergência para a prontidão permanente. – Climate Home News, Abril 2026

O paradoxo da preparação: muito plano, pouca ação

O alerta mais perturbador do relatório não é sobre o clima – é sobre os governos. Muitos países introduziram planos de ação para o calor, mas estes são frequentemente reativos, focados na resposta de emergência de curto prazo em vez de uma governação sistémica e preventiva. O Secretário-Geral da ONU emitiu em 2025 um apelo urgente para que os governos elaborem planos de ação para o calor que incluam sistemas de alerta precoce, identificação de populações em risco e reforço das redes de segurança social.

O problema é económico tanto quanto político. Até 2030, estima-se que o calor extremo cause perdas de produtividade e económicas globais anuais de 2,4 biliões de dólares. Em 2100, os custos para o sector dos transportes europeu poderão atingir 12,2 mil milhões de dólares por ano. Em 2024, 171 milhões de alunos em todo o mundo foram afetados por interrupções escolares causadas por ondas de calor. A conta do não-preparar é medida em vidas e em euros.

O que Portugal precisa de aprender

Portugal está entre os países europeus mais vulneráveis ao calor extremo. O interior do país – Alentejo, Beira Interior, Trás-os-Montes – regista algumas das temperaturas mais elevadas da Península Ibérica nos meses de verão, com populações envelhecidas e infraestruturas de saúde com recursos limitados. As ondas de calor de 2022 e 2023 deixaram marcas profundas na mortalidade nacional. Mas a abordagem continua a ser predominantemente reativa: declarar emergência quando as temperaturas disparam, em vez de investir na adaptação permanente de habitações, espaços urbanos e sistemas de saúde.

A Comissão Europeia prevê apresentar no segundo semestre de 2026 uma proposta de Quadro Europeu Integrado de Resiliência Climática – um instrumento que poderia finalmente dar coerência às políticas de adaptação dispersas pelos Estados-membros. Para Portugal, o calendário é apertado: o verão não espera por marcos legislativos.

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