Grounded in Purpose: o que o relatório de sustentabilidade da Sovena revela sobre como uma empresa portuguesa está a tentar ser sustentável à escala global
O Grupo Sovena publicou o seu Relatório de Sustentabilidade 2024 com o tema Grounded in Purpose – enraizados no propósito. Com 98% da eletricidade consumida globalmente proveniente de fontes renováveis, uma redução de 6% nas emissões de GEE face a 2023, e 8.445 hectares de olivais geridos com sistemas de irrigação por gotejamento e energia solar, a empresa portuguesa mais integrada do sector do azeite apresenta um retrato de sustentabilidade com substância real – e com os desafios igualmente documentados. Num mercado que vale 22 mil milhões de dólares em 2026 e que cresce a 6% ao ano, mas enfrenta as alterações climáticas como o seu maior risco estrutural, a história da Sovena é também a história do sector.
A Sovena não é apenas uma empresa de embalagem e distribuição de azeite. É um dos raros casos de integração vertical completa no sector: desde a agricultura – com olivais próprios em Portugal, Espanha e Marrocos geridos pela subsidiária Nutrifarms – à extração, refinação, embalagem e distribuição global, passando pela produção de biodiesel a partir dos subprodutos do processo de refinação. Esta integração tem implicações diretas para a sua abordagem à sustentabilidade: permite controlar e medir o impacto em toda a cadeia de valor, desde o solo onde a oliveira cresce até à embalagem que chega ao consumidor final.
O relatório de 2024 documenta este percurso com uma transparência que é em si mesma um indicador de maturidade ESG. A Sovena alargou o cálculo da sua pegada de carbono para abranger todas as empresas do Grupo e todas as categorias de emissões indiretas – incluindo as do Âmbito 3, que cobrem as emissões da cadeia de abastecimento a montante e a jusante das operações diretas. A decisão de incluir o Âmbito 3 é voluntária e metodologicamente exigente, mas é o que torna um relatório de sustentabilidade genuinamente informativo: as emissões mais difíceis de controlar são precisamente as que ficam fora das operações diretas da empresa.
Os 8.445 hectares de olivais de alta densidade geridos pela Nutrifarms em Portugal, Espanha e Marrocos incorporam sistemas de irrigação por gotejamento e 11 explorações com energia própria de origem solar – uma escolha que combina eficiência hídrica com descarbonização energética numa das atividades agrícolas mais sensíveis à disponibilidade de água. A certificação em produção integrada e os prémios recebidos em 2024 – incluindo o Prémio Empresa Agrícola que Marca (Vida Rural) e o Prémio Sustentabilidade Social do programa Alqueva Sustentável – refletem um reconhecimento externo do trabalho realizado no campo.
Os números de 2024: o que melhorou e o que fica por fazer
Os dados ambientais do relatório de 2024 mostram progressos concretos e mensuráveis em várias dimensões. A redução de 6% nas emissões de GEE das operações diretas face a 2023 é significativa num sector onde a descarbonização industrial é tecnicamente desafiante. Os 98% de eletricidade de origem renovável – 100% na Península Ibérica e nos EUA – refletem um investimento consistente em energia limpa que começou há vários anos e que agora atingiu uma cobertura quase total. O aumento de 60% no consumo de PET reciclado nas embalagens documenta um progresso real na transição para economia circular nos materiais de embalagem.
Na logística, a introdução de veículos elétricos no transporte entre as unidades de Brenes e Andújar reduziu as emissões de CO2 do transporte em 30% nessa rota. A renovação da frota de colaboradores com veículos elétricos e híbridos avança gradualmente. E a certificação eCircular – um sistema voluntário de classificação de economia circular – foi obtida nas unidades de Almada, Barreiro e Nutrifarms, reconhecendo a integração de práticas circulares nas operações.
Mas o relatório não oculta os desafios. O Âmbito 3 – as emissões indiretas da cadeia de valor, incluindo as emissões associadas às matérias-primas agrícolas compradas a terceiros, ao transporte internacional e ao uso e fim de vida dos produtos – continua a ser a maior fatia da pegada de carbono total da empresa e a que está menos sob controlo direto. Este é o desafio estrutural de qualquer empresa com cadeias de abastecimento globais e diversificadas: pode controlar as suas operações diretas, mas a descarbonização da cadeia alargada exige influência sobre fornecedores, parceiros logísticos e consumidores finais que não estão sujeitos à sua autoridade hierárquica.
Na dimensão social, o relatório documenta a renovação da certificação EFR (Empresa Familiarmente Responsável) em Portugal, a obtenção da certificação SMETA 4 pilares na unidade espanhola de Andújar – que garante elevados padrões éticos, laborais, de saúde e ambientais na cadeia de abastecimento – e a formação de executivos em sustentabilidade e liderança. A extensão da certificação EFR a outras geografias está identificada como objetivo em curso.
A dimensão da circularidade: subprodutos que se tornam combustível
Um dos elementos mais distintivos do modelo de negócio da Sovena do ponto de vista da economia circular é a valorização dos subprodutos do processo de refinação do azeite para a produção de biodiesel. A unidade de Almada, em Portugal, produz biodiesel a partir das borras e dos subprodutos gordurosos gerados na refinação – transformando o que seria resíduo num produto de valor com mercado estabelecido e com um impacto ambiental significativamente inferior ao diesel fóssil que substitui.
Em 2024, a unidade de Brenes, em Espanha, obteve a certificação ISCC (International Sustainability and Carbon Certification) para a valorização de três subprodutos, incluindo o uso para biocombustíveis – uma certificação que atesta a sustentabilidade e a rastreabilidade da cadeia de produção do biodiesel e que é reconhecida pelos principais mercados de biocombustíveis europeus. A certificação ISCC é relevante também no contexto da Diretiva de Energias Renováveis (RED III) da UE, que estabelece critérios de sustentabilidade para os biocombustíveis utilizados no transporte.
Esta dimensão de circularidade – transformar subprodutos industriais em energia renovável – é um dos casos mais concretos de como a economia circular se aplica a um sector agroalimentar. O azeite produzido nos olivais e transformado nas unidades industriais gera inevitavelmente subprodutos: a questão é o que se faz com eles. A Sovena optou por uma cadeia de valorização que mantém o material dentro de um ciclo de uso produtivo, em vez de o descartar. É um modelo que serve simultaneamente os objetivos de redução de resíduos, de descarbonização energética e de eficiência económica.
O MERCADO GLOBAL DO AZEITE EM 2026: CRESCIMENTO, PREÇOS E O RISCO CLIMÁTICO
Dimensão atual: o mercado global do azeite vale cerca de 20,3 mil milhões de dólares em 2026, com crescimento projetado para 34 mil milhões até 2034 (CAGR de ~6%). A Europa domina com ~50% do mercado global; os EUA são o maior mercado de exportação individual (21% das exportações da Sovena).
O azeite virgem extra representa ~46% das vendas em valor, impulsionado pela premiumização e pela procura de produtos com benefícios documentados para a saúde. O segmento de embalagens em garrafa domina com 64% do mercado, mas as embalagens flexíveis (pouches) crescem ao dobro da taxa média pela sua conveniência e menor pegada de carbono por unidade transportada.
Inovação sustentável: em setembro de 2025, a Bertolli (marca da Sovena) lançou a primeira garrafa de 100% rPET para azeite nos EUA – uma inovação que combina circularidade de embalagem com diferenciação de marca para um consumidor americano crescentemente sensível à sustentabilidade.
O maior risco estrutural do sector: as alterações climáticas. Espanha e Portugal produzem juntos quase metade do azeite mundial, em territórios que aquecem mais rapidamente do que a média europeia e onde a seca estrutural se aprofunda. A colheita de 2023-2024 foi das mais baixas da última década em Portugal e Espanha por combinação de seca e ondas de calor – com impacto direto nos preços ao consumidor, que subiram em média 50-70% nos mercados europeus entre 2023 e 2025. O Super El Niño em desenvolvimento para 2026 acrescenta uma camada adicional de incerteza hídrica para a campanha de 2026-2027.
O que o relatório revela sobre o futuro do sector
O Relatório de Sustentabilidade 2024 da Sovena chega num momento em que o sector do azeite enfrenta simultaneamente as maiores pressões e as maiores oportunidades da sua história recente. As pressões são conhecidas: volatilidade climática que afeta as colheitas, preços que afastam consumidores de menor poder de compra, e um quadro regulatório europeu crescentemente exigente em matéria de reporte de sustentabilidade, rastreabilidade e alegações ambientais.
As oportunidades são igualmente reais: a procura global de azeite cresce a 6% ao ano, impulsionada pela expansão da dieta mediterrânica como referência de saúde em mercados como os EUA, o Brasil e a Ásia; a premiumização do extra virgem cria margens que permitem investimento em qualidade e sustentabilidade; e a integração vertical da Sovena confere-lhe uma posição competitiva num mercado onde a rastreabilidade da origem se está a tornar um argumento de valor central.
O tema Grounded in Purpose que a Sovena escolheu para o relatório de 2024 não é apenas uma declaração de intenção. É também uma descrição da vantagem competitiva que uma empresa integrada na terra – literalmente, com olivais próprios e solo certificado – tem numa época em que a transparência sobre a origem e as práticas de produção é um diferenciador crescentemente valorizado pelo mercado. A sustentabilidade que começa no solo e se mantém até à embalagem reciclada não é apenas boa para o planeta. Em 2026, começa também a ser boa para os negócios.
Fonte: Sovena Group / Journal of Sustainability Reports / SNS Insider / Fortune Business Insights

