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Reciclar não chega: Portugal no banco dos réus no Dia Internacional da Reciclagem

A taxa de utilização de materiais reciclados de Portugal ficou nos 3% em 2024 – a terceira mais baixa da União Europeia. O Sistema de Depósito e Retorno arrancou em abril, os aterros aproximam-se da capacidade máxima e as metas de 2030 parecem cada vez mais distantes. No Dia Internacional da Reciclagem, os números obrigam a uma leitura sem eufemismos.

A Unesco instituiu o Dia Internacional da Reciclagem a 17 de maio para lembrar ao mundo que a forma como gerimos os nossos resíduos tem consequências diretas no clima, na saúde e na economia. No caso de Portugal, a data deste ano chega carregada de um paradoxo incómodo: os portugueses enchem os ecopontos, as campanhas de sensibilização multiplicam-se nos écrans e nas ruas, mas os dados mostram um país sistematicamente abaixo da média europeia. Não é falta de consciência. É, sobretudo, falta de infraestrutura, de incentivos económicos e de urgência política.

Os dados são brutais na sua clareza. Em 2024, Portugal registou uma taxa de utilização de materiais reciclados de 3%, a terceira mais baixa de toda a União Europeia, num contexto em que a média comunitária se situou nos 12,2%, segundo o Eurostat. Para encontrar líderes, basta olhar para os Países Baixos (32,7%), a Bélgica (22,7%) ou a Itália (21,6%). Portugal partilha o fundo da tabela com a Roménia (1,3%), a Finlândia e a Irlanda (2,0% cada). A taxa de circularidade manteve-se estagnada face a 2023. Não regrediu, mas também não avançou.

Aterros a transbordar e a meta que ficou por cumprir

A reciclagem de embalagens é talvez o termómetro mais visível do esforço nacional. Em 2024, foram encaminhadas para reciclagem 477 mil toneladas de embalagens, equivalentes a uma taxa de retoma de 58,6% – suficiente para cumprir a meta desse ano (55%), mas insuficiente para o patamar seguinte. Em 2025, a projeção do Electrão, associação gestora de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos, apontava para cerca de 550 mil toneladas, o que se traduziria numa taxa de 61% – abaixo dos 65% exigidos pela União Europeia para esse ano.

Estamos com metas mais exigentes, mais embalagens a entrar no mercado, aterros perto do limite e um crescimento muito tímido das taxas de reciclagem“, alertou Pedro Nazareth, CEO do Electrão, em dezembro passado. “Em linguagem simples, estamos atrasados em relação à Europa e às obrigações que assumimos. Se não acelerarmos agora, não será apenas a meta de 2025 que fica em risco, todo o caminho até 2030 fica comprometido“.

A metáfora do aterro é, aliás, cada vez menos metáfora. Cerca de 59% dos resíduos urbanos portugueses têm como destino final os aterros sanitários, e vários destes aproximam-se do limite de capacidade – alguns poderão esgotar-se até 2027 se não forem adotadas medidas adicionais com urgência. Portugal surge na 21.ª posição do ranking europeu de reciclagem de embalagens. Para 2030, a fasquia sobe para 70%, exigindo uma aceleração que os dados atuais não suportam.

Sistema de Depósito e Retorno: a aposta de abril

A 10 de abril deste ano, Portugal estreou um instrumento que países como a Noruega, a Alemanha, a Finlândia, a Dinamarca e a Estónia utilizam há décadas: o Sistema de Depósito e Retorno (SDR). Garrafas e latas de até três litros passaram a ser vendidas com um custo adicional de cerca de 10 cêntimos, reembolsável aquando da devolução nos pontos de recolha. O sistema responde diretamente à Diretiva dos Plásticos de Utilização Única (DSUP) e ao imperativo de recolher 90% das embalagens de bebidas abrangidas até 2029.

O argumento é simples: o incentivo financeiro funciona onde a consciência ambiental não chega. Na Alemanha, o sistema implantado em 2003 – que pode cobrar até 25 cêntimos por embalagem – é referido como um caso de sucesso consolidado. Na Noruega, funciona há meio século. A questão em aberto é se Portugal dispõe da rede de máquinas de retorno acessível e distribuída pelo território que tornou esses sistemas eficazes noutros países.

Os ecopontos e a recolha porta-a-porta não permitem atingir os 90% de recolha, nem material de qualidade para incorporar“, reconheceu José Pimenta Machado, diretor da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em entrevista recente. A aposta no SDR parte, pois, do reconhecimento implícito de que o modelo anterior atingiu o seu limite.

O preço do lixo vai subir – e é intencional

A par do SDR, o Governo decidiu recalibrar outro instrumento económico: a Taxa de Gestão de Resíduos (TGR). Em vigor desde 2007, a taxa – paga pelos municípios e entidades gestoras, mas repercutida nas faturas domésticas da água – vai subir cinco euros por tonelada ao ano, entre 2026 e 2030. De 35 euros em 2025, chegará a 60 euros por tonelada em 2030.

A justificação está no próprio despacho governamental: Portugal continua a aplicar taxas “muito inferiores às praticadas pela maioria dos Estados-membros“, o que enfraquece o incentivo económico à reciclagem e à valorização. A lógica é que tornar a deposição em aterro mais cara estimula alternativas – mas a eficácia depende de essas alternativas existirem e serem acessíveis. Sem capacidade instalada para triagem e valorização, a subida da taxa pode apenas encarecer a fatura sem mudar comportamentos.

Em setembro de 2025, o Governo lançou um aviso de 30 milhões de euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) no âmbito do REPowerEU, para reforçar a capacidade de reciclagem e valorização: instalação e modernização de linhas de triagem de embalagens, aquisição de viaturas elétricas, criação ou reforço de centrais de compostagem de biorresíduos. A taxa de comparticipação chegava aos 100%, com prazo de conclusão até ao final de 2025. O calendário era, já na altura, apertado.

O que dizem os dados globais

Olhando para além das fronteiras nacionais, o quadro global não é reconfortante. Segundo dados das Nações Unidas, menos de 10% dos resíduos produzidos no mundo são efetivamente reciclados. A reciclagem evita emissões de metano e dióxido de carbono provenientes de aterros e lixões, conserva recursos naturais, cria emprego e alimenta cadeias de valor da economia circular. A razão entre o que é possível e o que é feito representa, em si mesma, uma das maiores ineficiências ambientais da modernidade.

A ONU estima que mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo trabalham direta ou indiretamente na recolha e triagem de recicláveis, sendo cerca de quatro milhões só na América Latina. Esta dimensão humana e económica raramente entra nas narrativas dominantes sobre reciclagem, que tendem a centrar-se no gesto do consumidor final – separar em casa – e a invisibilizar a complexidade da cadeia a montante e a jusante.

A meta europeia é clara: até 2035, apenas 10% dos resíduos urbanos podem ser depositados em aterro. Hoje, em Portugal, são 59%. A distância entre estes dois números é a medida do trabalho que resta.

Os limites da boa vontade individual

Há uma tensão que percorre todas as conversas sobre reciclagem e que raramente é dita com clareza: o peso da responsabilidade individual é frequentemente desproporcionado em relação à escala do problema. Empresas continuam a empacotar produtos em materiais difíceis ou impossíveis de reciclar. Municípios sem recolha seletiva são ainda a regra em vastas zonas do país. E a própria definição de “reciclagem” está sujeita a critérios contabilísticos que podem distorcer taxas e ocultar o que realmente acontece aos materiais depois da ecoponto.

Separar corretamente em casa é necessário, mas não suficiente. O material separado precisa de ser recolhido com frequência e qualidade, triado em instalações com tecnologia adequada, encontrar mercado como matéria-prima secundária e reingressar na produção de novos produtos. Cada elo desta cadeia pode falhar. E quando falha, o gesto do consumidor torna-se inútil.

A campanha “Atrasados ambientais“, lançada pelo Electrão no final de 2025, optou por um tom de desconforto deliberado. O desconforto é, por enquanto, o recurso mais honesto disponível. A reciclagem não pode continuar a ser vendida como solução suficiente enquanto o modelo de produção e consumo que alimenta a geração de resíduos permanece intocado.

O que é preciso para mudar de patamar

O diagnóstico está feito há anos e os especialistas convergem nos elementos essenciais: mais infraestrutura de triagem e valorização; reforço da rede de pontos de entrega, em especial nos municípios do interior; regulação mais exigente sobre o design de embalagens, com ecomodulação das taxas em função da reciclabilidade; integração da logística reversa como obrigação alargada para os produtores; e informação clara ao consumidor sobre o que pode e não pode ser reciclado – porque a contaminação de contentores por resíduos incorretamente depositados permanece um dos principais obstáculos operacionais.

O PERSU 2030 – Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos – estabelece as metas e o quadro regulatório. O que falta, em grande medida, é a velocidade de execução. Portugal tem o mapa. Falta percorrer o caminho a passo mais rápido.


Contexto: o que é o Dia Internacional da Reciclagem

O Dia Internacional da Reciclagem foi instituído pela UNESCO a 17 de maio para assinalar a importância global da redução, reutilização e reciclagem de resíduos. A data responde ao crescimento acelerado da geração de lixo e ao seu impacto sobre o ambiente, a saúde pública e o clima. A reciclagem é um dos pilares da economia circular, modelo que propõe sistemas produtivos baseados no reaproveitamento de materiais, na eliminação de desperdício e na regeneração ambiental. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS 12) fixam como meta “reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso” até 2030.

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