Tetra Pak reduz emissões da cadeia de valor em um terço – e o relatório FY25 revela o que mudou e o que ainda falta
A 5 de junho de 2026 – coincidindo deliberadamente com o Dia Mundial do Ambiente – a Tetra Pak publicou o seu Relatório de Sustentabilidade FY25, o 27.º desde que a empresa começou a reportar anualmente. Os números centrais são expressivos: redução de 34% nas emissões de gases com efeito de estufa em toda a cadeia de valor desde 2019, uma melhoria de quase 12 pontos percentuais face ao ano anterior; redução de 56% nas suas próprias operações; e 97% de energia renovável no consumo operacional global. A barreira de papel que elimina o alumínio das embalagens assépticas – a inovação com raízes portuguesas na parceria com a Lactogal – chegou às linhas de alta velocidade na Ásia e ao primeiro produto de um litro em Itália. E pela primeira vez, a empresa reportou ao abrigo das normas europeias ESRS, posicionando-se como referência de transparência no sector da embalagem. Mas o relatório é também honesto sobre o que falta – e sobre por que razão as metas de 2030 exigem uma aceleração que os dados de 2025 ainda não garantem.
O Relatório de Sustentabilidade FY25 da Tetra Pak não é um documento rotineiro. É o 27.º relatório anual de uma empresa que começou a publicar dados de sustentabilidade muito antes de isso ser exigido por regulação europeia – e que usou este ciclo de reporte para construir, ao longo de quase três décadas, uma das bases de dados mais completas sobre o impacto ambiental de um fabricante de embalagens a nível global.
A publicação a 5 de junho tem um enquadramento político relevante: a Tetra Pak é uma das primeiras grandes empresas do sector da embalagem a adotar os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) como referencial principal de reporte, substituindo o anterior alinhamento com o GRI. Esta mudança não é apenas formal – os ESRS exigem uma abordagem de dupla materialidade que obriga a empresa a avaliar tanto os riscos e oportunidades que as questões de sustentabilidade colocam ao seu negócio como os impactos que o seu negócio tem sobre o ambiente e as pessoas. A adoção voluntária dos ESRS antes de ser legalmente obrigatória é um sinal de antecipação regulatória – e de que a empresa está a apostar na credibilidade verificável como vantagem competitiva num contexto de Green Claims Directive iminente.
O contexto de mercado em que o relatório chega é igualmente relevante. A Tetra Pak identificou três tendências dominantes nas embalagens para 2026: aceleração da paperização dos materiais, crescimento da procura de reduções de carbono verificáveis, e pressão crescente para resultados circulares à escala. São exatamente as forças que a regulação europeia – do PPWR ao Circular Economy Act – está a amplificar. O relatório FY25 é, neste sentido, tanto um balanço de resultados como um posicionamento estratégico.
Os números: o que melhorou em 2025
A redução de 34% nas emissões de gases com efeito de estufa em toda a cadeia de valor desde 2019 – o ano base estabelecido pela Science Based Targets initiative para os compromissos climáticos da Tetra Pak – é o número mais citado do relatório. Mas o detalhe mais revelador é a variação anual: a melhoria de quase 12 pontos percentuais face ao ano anterior representa uma aceleração significativa no ritmo de descarbonização, depois de vários anos de progresso mais gradual.
A redução de 56% nas emissões das próprias operações – fábricas, armazéns, frotas, escritórios – é igualmente expressiva e reflete o impacto combinado de três fatores: a expansão do consumo de energia renovável para 97% do total operacional global, a eficiência crescente das linhas de produção, e a redução de perdas de produto no processo de fabrico. As emissões das linhas de processamento de laticínios em ambiente asséptico – um dos contextos industriais mais intensivos em energia do portfólio – reduziram-se 35% face à linha de base de 2019, colocando a empresa no caminho para a meta de 50% de redução até 2030.
O investimento de 100 milhões de euros em investigação e desenvolvimento de embalagens em 2025 – parte de um compromisso de cerca de 100 milhões anuais até 2030 – produziu resultados concretos: a barreira de papel que substitui a camada de alumínio nas embalagens assépticas atingiu um nível de impacto de 43% de redução da pegada de carbono face a uma embalagem asséptica convencional com camada de alumínio e polímero fóssil. E o protocolo de intenções assinado com a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI) formaliza um compromisso de colaboração para a descarbonização dos sistemas alimentares a nível global, um passo que vai além da pegada da própria Tetra Pak para abordar a pegada do sector em que opera.
Barreira de papel: da Lactogal portuguesa ao mundo
A história da barreira de papel da Tetra Pak tem uma origem que os portugueses podem reclamar com orgulho. Foi em 2023, numa parceria com a Lactogal – a maior empresa portuguesa de produtos lácteos – que a Tetra Pak lançou a primeira embalagem asséptica com barreira de papel comercialmente disponível no mundo. A embalagem, de 200 mililitros, foi o primeiro passo na substituição da camada de alumínio que durante décadas garantiu a conservação dos produtos a temperatura ambiente, mas complicou a reciclagem das embalagens.
Desde então, a tecnologia expandiu-se de forma acelerada. Em dezembro de 2025, o grupo espanhol García Carrión lançou a primeira embalagem com barreira de papel para sumos, um passo para categorias de produto além dos lácteos. Em fevereiro de 2026, a sul-coreana Maeil Dairies tornou-se a primeira produtora a implementar a solução em linhas de enchimento de alta velocidade Tetra Pak A3/Speed, com uma redução de 26% na pegada de carbono verificada pelo Carbon Trust. Em abril de 2026, a italiana Sterilgarda Alimenti lançou a primeira embalagem de um litro com barreira de papel, o formato mais vendido do portfólio Tetra Pak a nível mundial.
Para escalar industrialmente esta tecnologia, a Tetra Pak anunciou em janeiro de 2026 um investimento de 60 milhões de euros numa nova instalação piloto para o desenvolvimento de embalagens com barreira de papel na sua sede em Lund, na Suécia. A instalação, com início de operações previsto para o primeiro trimestre de 2027, é parte do compromisso de investimento de cerca de 100 milhões de euros anuais até 2030 em inovação de embalagens sustentáveis. Joakim Tuvesson, vice-presidente de Materiais e Embalagem, foi direto sobre o objetivo: tornar a barreira de papel acessível a mais clientes e acelerar a transição para materiais de embalagem mais renováveis a nível global.
O que o relatório não esconde: os desafios de 2030
Um dos elementos mais credíveis do Relatório FY25 é a transparência sobre os desafios que persistem. A meta de 46% de redução de emissões na cadeia de valor até 2030 – face aos 34% atingidos em 2025 – exige uma aceleração no ritmo de descarbonização que os dados atuais não garantem automaticamente. A maior parte das emissões da Tetra Pak concentra-se no chamado Âmbito 3 – as emissões associadas às matérias-primas compradas a fornecedores, ao transporte dos produtos acabados e, sobretudo, ao uso e fim de vida das embalagens pelos consumidores e pelos sistemas de gestão de resíduos. É exatamente aqui que o controlo direto da empresa é mais limitado – e onde a colaboração com fornecedores, clientes e sistemas de recolha é indispensável.
A meta de 100% de energia renovável nas operações até 2030 – face aos 97% atuais – é a mais próxima de ser atingida. Mas a meta de 10% de polímeros reciclados nas embalagens vendidas na Europa até 2030 está ainda distante dos valores atuais, refletindo tanto a escassez de polímeros reciclados de qualidade alimentar como os custos mais elevados destes materiais face aos equivalentes fósseis virgens – precisamente o problema estrutural que o relatório da Plastics Europe documentou em maio.
A diretora de Sustentabilidade da Tetra Pak, Yannick Franc, enquadrou o propósito do relatório numa perspetiva que vai além da empresa: a descarbonização das embalagens não é suficiente se os sistemas alimentares em que operam continuarem a ter elevadas pegadas de carbono. A parceria com a ONUDI e o posicionamento da resiliência alimentar como tema central do relatório refletem uma evolução na forma como a empresa define o seu papel – de fabricante de embalagens para ator nos sistemas alimentares globais.
O que significa para Portugal… e para as empresas que reportam em ESRS
Para Portugal, o relatório da Tetra Pak tem duas dimensões relevantes. A primeira é o reconhecimento do papel pioneiro da Lactogal na inovação da barreira de papel – uma parceria que colocou uma empresa portuguesa no centro de uma das mais significativas inovações de embalagem da última década e que demonstra que a indústria alimentar nacional pode ser palco de liderança tecnológica em sustentabilidade.
A segunda dimensão é o precedente do reporte em ESRS. A Tetra Pak é uma empresa de grande dimensão obrigada a reportar ao abrigo da CSRD, e a sua adoção dos ESRS como referencial principal, com a abordagem de dupla materialidade que isso implica, é um sinal para as empresas portuguesas que estão a preparar os seus primeiros relatórios ao abrigo do mesmo quadro. O que a Tetra Pak demonstra na sua 27.ª edição é que o reporte de sustentabilidade rigoroso e verificável é tanto um instrumento de gestão como um instrumento de comunicação, e que a credibilidade que constrói ao longo de décadas é uma vantagem competitiva real num mercado onde a Green Claims Directive está a tornar o greenwashing progressivamente custoso.
Os três números do relatório FY25 – 34% de redução na cadeia de valor, 56% nas operações, 97% de energia renovável – são benchmarks que as empresas da cadeia de valor alimentar portuguesa podem usar como referência para calibrar as suas próprias ambições de descarbonização. O caminho da Lactogal para a Sterilgarda, passando pela Maeil Dairies, é também o caminho da tecnologia portuguesa para o mercado mundial. E isso, em 2026, vale cada palavra de um relatório de sustentabilidade.
Fonte: Tetra Pak / Sustainable Packaging News / Sustainability Magazine / Food and Beverage Business / Packaging Insights

