Smartphone antes dos 16 anos? Eduardo Sá alerta para uma infância “à beira da extinção”
Num evento organizado pela SPC, Eduardo Sá alertou que a infância está, hoje, à beira da extinção por causa do digital
A pergunta que motivou o encontro, organizado pela marca espanhola de eletrónica SPC, parecia simples: como podem as famílias gerir a tecnologia de forma autónoma, consciente e saudável? A resposta, ao longo de mais de uma hora de conversa aberta entre o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá, professor na Universidade de Coimbra e no ISPA, e as criadoras de conteúdo e mães Andreia Paes Vasconcellos e Ana Castro Sanches, revelou-se bem mais incómoda. “Nós somos os melhores pais que a humanidade já produziu e temos as crianças mais competentes que alguma vez existiram“, abriu Eduardo Sá. “Mas é importante termos noção de que a infância está, literalmente, à beira da extinção“.
O encontro, moderado por Manuel Ferreira, country manager da SPC em Portugal, serviu de antecâmara à apresentação de uma proposta da marca para aquilo a que chamou o ano da digitalização familiar. Mas foi a primeira parte, de conversa livre, que deu o tom: um retrato sem grandes rodeios do que a exposição precoce e descontrolada ao digital está a fazer às crianças portuguesas.
Uma infância que trabalha mais do que brinca
Para Eduardo Sá, o problema não é a tecnologia em si, mas a ausência de regras à sua volta. As crianças de hoje, descreveu, “trabalham das oito às oito, praticamente, e brincam de menos“, são “as pessoas mais sedentárias da humanidade até hoje” e “vivem em stress e agitação permanentes“. Citou estudos que apontam para duas horas e meia de ecrã por dia em Portugal, o equivalente, em movimento dos dedos, a 17 maratonas por ano.
O psicólogo insistiu também no efeito cumulativo desta exposição sobre o sistema nervoso. “Se um conteúdo demora um segundo a fazer scroll e um vídeo demora três, estamos a meter, todos os dias, entre 4.500 e 9.000 conteúdos no nosso sistema nervoso“, afirmou. “As pessoas chegam ao fim do dia e dizem que estão cansadas, com falta de memória. Não é de admirar“. Segundo Eduardo Sá, esta sobrecarga ajuda a explicar um dado que considera particularmente grave: pela primeira vez na história, há crianças com níveis cognitivos inferiores aos dos pais, por causa da introdução precoce e desregulada da tecnologia.
“Um lápis mais caro”, mas também uma “droga leve”
Eduardo Sá recusa, contudo, qualquer leitura simplista de que a tecnologia seja, em si, o problema. “A tecnologia é um lápis mais caro. É fantástico“, resumiu, recorrendo ao exemplo dos videojogos, que considera benéficos para o raciocínio lógico e a capacidade de formular hipóteses em tempo real. O risco está na falta de limites. “Os videojogos sem regras são, neste momento, a droga leve que damos aos nossos filhos“, alertou. “Sem regras, as crianças ficam mais impulsivas, menos atentas, mais violentas, com menos espaço para a verdade“.
A proposta da SPC, recordou Manuel Ferreira, nasce precisamente desta tensão entre limitar o acesso e preparar as crianças para serem, dentro de alguns anos, autónomas no uso da tecnologia.
Dez anos para o telefone simples, dezasseis para as redes sociais
Questionado sobre idades de referência, Eduardo Sá defendeu que os 10 anos podem ser uma idade aceitável para um primeiro telemóvel simples, sem internet, mas que as redes sociais deveriam estar vedadas a menores de 16 anos. Os smartphones com acesso livre antes dessa idade são, na sua leitura, um dos pontos que mais o inquietam.
O psicólogo associou ainda a introdução precoce e sem regras do digital a outros sinais de alarme: o aumento da exigência sobre as crianças, dentro e fora da escola, está, na sua leitura, a alimentar baixa autoestima, crises de pânico e um maior consumo de psicofármacos. “Porque é que elas têm baixa autoestima? É muito fácil: porque nós não paramos de exigir“, resumiu.
O desafio do paracetamol e os riscos que já moram em casa
Eduardo Sá usou o exemplo de um desafio viral no TikTok, em que adolescentes testavam quantos comprimidos de paracetamol conseguiam tomar antes de precisarem de ir ao hospital, para ilustrar uma pergunta que considera incómoda, mas inevitável: de quem é a responsabilidade quando este tipo de conteúdo circula livremente entre menores? “Houve várias hospitalizações em Portugal, com insuficiência hepática aguda e consequências para toda a vida. É a altura de perguntarmos aos governos: de quem é a responsabilidade?“, questionou.
Foi Andreia Paes Vasconcellos quem resumiu, de forma mais contundente, o que está em jogo quando se entrega um telemóvel a uma criança sem qualquer acompanhamento: “Um telemóvel não dá saúde mental a uma criança. Retira-a.” Na sua leitura, o WhatsApp é, muitas vezes, o principal responsável por essa erosão, ao transformar-se em “um grupo de bullying” para muitas crianças.
Da plateia surgiu ainda para a conversa outra camada do problema: o uso indevido da inteligência artificial. “Pode criar-se vídeos e fotografias com a cara de outras pessoas, e isso nota-se sobretudo na parte da pornografia“, alertou, referindo casos em que imagens de crianças sem qualquer responsabilidade nos factos foram manipuladas digitalmente. Esta nova camada tecnológica agrava um problema que já existia, o do bullying, que descreve como tendo mudado de natureza: “No nosso tempo, o bullying era na escola, era físico, resolvia-se. Hoje é digital e uma criança pode receber bullying de pessoas que não conhece, do outro lado do mundo”.
O exemplo dos pais pesa mais do que qualquer regra
Um dos pontos mais repetidos ao longo da conversa foi o papel do exemplo parental. Eduardo Sá criticou aquilo a que chamou os “pais 5G“, que usam a tecnologia mais para controlar os filhos, através de localizadores e aplicações de monitorização, do que para comunicar com eles, e alertou para a incoerência de pedir aos filhos comportamentos que os próprios adultos não seguem. “Dizemos aos nossos filhos para não verem o telemóvel à mesa e nós estamos sempre a ver redes sociais. À hora das refeições, na casa de banho, em todo o lado“, criticou, propondo mesmo uma campanha conjunta entre marcas tecnológicas e restaurantes para desencorajar o uso do telemóvel durante as refeições.
Ana Castro Sanches, criadora de conteúdo na página Dia Dois de Campo e mãe de dois filhos, de seis e nove anos, partilhou a forma como tem gerido esta tensão em casa. Nenhum dos filhos tem telemóvel; usam, pontualmente, um relógio com GPS, sem jogos nem WhatsApp, sobretudo em contextos como férias, quando os miúdos se afastam para brincar. “Tem de haver este acompanhamento de uma forma responsável. Se escolhemos tecnologia, que ela tenha este acompanhamento“, defendeu, sublinhando que a decisão de introduzir, ou não, cada ferramenta digital cabe sempre aos pais, e não pode ser delegada à escola ou ao Estado. “É muito mais fácil estarmos num restaurante e darmos a tecnologia para podermos conversar com os amigos, mas isso tem consequências diretas na maneira como os nossos filhos interagem connosco e com o mundo“.
Ambas as convidadas sublinharam ainda que esta gestão deixou de ser apenas uma questão individual. Quando todos os pais de uma turma decidem não dar acesso a um determinado aparelho, a regra funciona até ao momento em que as crianças descobrem que podem aceder a tudo em casa de um amigo, o que torna a educação digital, cada vez mais, um trabalho coletivo, e não apenas familiar.
Uma responsabilidade que não pode ser só dos pais
Para Eduardo Sá, a saída para este impasse não passa por proibições cegas, nem por deixar o tema apenas nas mãos de pais e escolas. Defendeu, por mais de uma vez, que o compromisso social das marcas de tecnologia “faz tanta diferença” e pode ser determinante para que as crianças cresçam de forma mais saudável, considerando que, se as empresas falarem diretamente com pais e adolescentes, de forma clara, o impacto será maior do que qualquer medida de governos que, na sua leitura, continuam distraídos com outras prioridades.
O psicólogo terminou com uma nota que procurou ser de esperança, mais do que de alarme. Os adolescentes de hoje, disse, vivem rodeados de crises, demográfica, financeira, ambiental, sem que ninguém lhes garanta um futuro melhor. Cabe aos pais, defendeu, devolver-lhes essa confiança. “Temos a obrigação de lhes dizer que acreditamos neles. O que falha, muitas vezes, é precisamente isso: o acreditar“.
A conversa terminou com a apresentação da proposta da SPC para o que a marca designa como o ano da digitalização familiar, mas a discussão que a antecedeu deixou um recado claro às famílias portuguesas: gerir o digital em casa já não é uma escolha de estilo educativo, é uma urgência de saúde pública.

