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Guimarães está, esta semana, no centro da Europa da resiliência climática

Desde quarta-feira, 17 de junho, e até hoje, dia 19, o Multiusos de Guimarães acolhe o 13.º Fórum Europeu de Resiliência Urbana – o EURESFO 2026, um dos encontros mais relevantes da Europa dedicados à adaptação às alterações climáticas, à gestão do risco de catástrofe e ao reforço da resiliência urbana. A escolha de Guimarães não é coincidência: a cidade minhota é, em 2026, a Capital Verde Europeia, e o fórum, coorganizado pela ICLEI Europe, pela Agência Europeia do Ambiente e pelo Município de Guimarães, junta representantes de cidades e regiões de toda a Europa para debater, sob o tema Moving Beyond Adaptation, como construir respostas integradas aos riscos climáticos compostos – calor, seca, cheias e incêndios – que já não podem ser tratados isoladamente.

O Fórum Europeu de Resiliência Urbana nasceu em 2013 como ponto de encontro regular para governos locais e regionais europeus empenhados na adaptação às alterações climáticas, na gestão de riscos de catástrofe e nos desafios mais amplos da resiliência territorial. Treze edições depois, o evento consolidou-se como uma das principais plataformas europeias de partilha de conhecimento entre autarquias, investigadores, decisores políticos e organizações da sociedade civil sobre como tornar as cidades europeias capazes de absorver e recuperar de choques climáticos cada vez mais frequentes e mais intensos.

A edição de 2026 organiza-se em torno do tema Moving Beyond Adaptation – Integrated Approaches to Resilience, uma formulação que sinaliza uma mudança de paradigma no próprio campo da adaptação climática. Durante anos, a resposta predominante das cidades europeias aos riscos climáticos consistiu em medidas sectoriais e reativas: reforçar sistemas de drenagem depois de uma cheia, criar planos de contingência para ondas de calor depois de uma vaga mortal, investir em combate a incêndios depois de uma época particularmente destrutiva. O tema deste ano propõe uma abordagem diferente: ligar a adaptação ao planeamento de longo prazo, à inovação na governação e ao bem-estar comunitário, tratando os riscos climáticos como compostos e interligados, e não como problemas isolados a resolver um de cada vez.

A escolha de Guimarães como anfitriã reflete um percurso reconhecido a nível europeu. A cidade foi Capital Europeia da Cultura em 2012, Cidade Europeia do Desporto em 2013, e foi distinguida durante três anos consecutivos como o município mais sustentável de Portugal, antes de ser escolhida como Capital Verde Europeia para 2026 – um título atribuído pela Comissão Europeia a cidades que demonstram um compromisso consistente e transversal com a sustentabilidade urbana. Como património classificado pela UNESCO, Guimarães combina uma identidade cultural profundamente enraizada com um percurso de décadas a incorporar a sustentabilidade nas decisões do quotidiano municipal – exatamente o pano de fundo que os organizadores do EURESFO consideraram inspirador para a discussão deste ano.

Fio condutor: incêndios e calor extremo no sul da Europa

Um dos momentos mais diretamente relevantes para Portugal no programa do EURESFO 2026 é a sessão dedicada aos incêndios florestais e ao calor extremo, que toma como ponto de partida explícito a severa época de incêndios de 2025 em Portugal e Espanha. A sessão, que reúne a experiência de Guimarães e de outras cidades europeias expostas a riscos semelhantes, examina como a ação local pode integrar a prevenção de incêndios e a gestão do calor extremo numa estratégia coerente, em vez de tratar estes dois riscos – frequentemente interligados pela mesma vaga de calor e seca que os origina – como problemas separados.

Esta abordagem integrada responde a uma lacuna recorrente nas políticas de adaptação climática europeias: os planos municipais de gestão de risco de incêndio e os planos de contingência para ondas de calor são, em muitos países, elaborados por equipas técnicas diferentes, com orçamentos diferentes e calendários de planeamento diferentes – apesar de partilharem causas climáticas comuns e de exigirem, em última análise, respostas coordenadas no terreno durante os mesmos períodos críticos do ano.

Para Portugal, este é um tema com urgência redobrada à luz do que o GreenOcean tem vindo a noticiar sobre as projeções para o verão de 2026: o Super El Niño em desenvolvimento, que pode tornar-se o evento mais intenso de que há registo, aponta para um verão excecionalmente quente no Mediterrâneo e na Península Ibérica, com risco de seca agravado precisamente nas regiões mais vulneráveis a incêndios florestais. A sessão de Guimarães chega, assim, num momento em que as autarquias portuguesas enfrentam a dupla pressão de gerir as consequências da época de 2025 e de se preparar para um verão de 2026 que os modelos climáticos descrevem como potencialmente ainda mais severo.

Financiamento e soluções baseadas na natureza: as outras grandes linhas de debate

Para além dos incêndios e do calor, o programa do EURESFO 2026 dedica espaço significativo a dois outros temas que têm vindo a ganhar peso crescente no debate europeu sobre adaptação climática. O primeiro é o financiamento da resiliência climática – uma sessão que junta especialistas em finanças e investimento para discutir como ligar as necessidades concretas de adaptação das cidades a fontes de financiamento sustentáveis e escaláveis, um dos obstáculos mais persistentes identificados em sucessivos relatórios europeus sobre adaptação climática, incluindo o já mencionado pela AEA em maio sobre os défices de investimento em economia circular e que se repete, com contornos próprios, na área da adaptação.

O segundo eixo são as soluções baseadas na natureza – desde a gestão integrada da água e da saúde dos solos até ao planeamento de paisagens resilientes, incluindo sessões específicas sobre como ir além do conceito enquanto buzzword e garantir que estas soluções produzem impacto real e mensurável nas comunidades onde são implementadas. Este tema liga-se diretamente ao que o GreenOcean já noticiou sobre o estudo da Comissão Europeia relativo a paredes e telhados verdes, e sobre a EU Green Week 2026, que colocou a natureza como infraestrutura económica central – um argumento que volta a emergir aqui, agora aplicado especificamente à escala da resiliência urbana.

O fórum integra ainda uma dimensão de equidade que os organizadores consideram central: como assegurar que as estratégias de adaptação e resiliência não aprofundam desigualdades existentes, dando voz e capacidade de decisão às comunidades mais vulneráveis em vez de lhes impor soluções desenhadas sem a sua participação. Esta preocupação com a chamada just resilience ecoa um debate que o GreenOcean já identificou noutros contextos da transição climática europeia – da equidade na transição energética do ETS2 à divisão verde nos espaços urbanos documentada num estudo da Comissão sobre acesso desigual a zonas verdes nas cidades europeias.

Missão de Adaptação da UE: o contexto institucional por detrás do fórum

O EURESFO 2026 não acontece isoladamente – está integrado na arquitetura mais ampla da Missão da UE para a Adaptação às Alterações Climáticas, uma das missões emblemáticas do programa Horizonte Europa, lançada com o objetivo de apoiar pelo menos 150 regiões e comunidades europeias na construção de resiliência climática até 2030. O relatório de atividades 2025/26 da Missão, publicado a 20 de maio, documenta um ecossistema em franco crescimento: mais de 400 autoridades regionais e locais já participam nas suas atividades, através de uma carteira de 65 projetos Horizonte Europa que representam um investimento europeu de 615 milhões de euros, e uma comunidade ativa que reúne mais de 700 participantes em mecanismos de partilha de conhecimento e aprendizagem entre pares.

Elina Bardram, gestora da Missão, escreveu no prefácio do relatório uma frase que resume a filosofia subjacente a iniciativas como o EURESFO: a ação coletiva, enraizada em lugares reais e em parcerias fortes, é a forma como a Europa constrói a sua resiliência. O relatório assinala que esta primeira fase de fundações está agora a dar lugar a uma fase de escala mais ampla – exatamente o momento em que um fórum como o de Guimarães, que liga diretamente as autoridades locais às estruturas de governação europeia, ganha relevância acrescida.

Entre os projetos destacados no relatório da Missão está o Pathways2Resilience, que ajuda regiões europeias a desenvolver planos de adaptação climática à medida das suas características territoriais específicas – e que tem presença confirmada nas sessões de Guimarães. A experiência acumulada por estes projetos, segundo o próprio relatório da Missão, alimentará o futuro Quadro Integrado de Resiliência Climática que a Comissão Europeia está a preparar – um sinal de que encontros como o EURESFO não são apenas momentos de partilha de boas práticas, mas também espaços onde se vão construindo, de baixo para cima, os contornos da próxima geração de política europeia de adaptação.

O que Guimarães ganha… e o que Portugal pode aprender

Para Guimarães, acolher o EURESFO no ano em que detém o título de Capital Verde Europeia é simultaneamente um reconhecimento e uma responsabilidade acrescida. O presidente da Câmara Municipal, Ricardo Araújo, sublinhou que a realização do fórum no concelho acontece num momento particularmente relevante para a cidade – uma formulação que reflete a consciência de que o ano de Capital Verde funciona como montra europeia de tudo o que Guimarães tem feito e tudo o que ainda precisa de fazer em matéria de sustentabilidade urbana.

O programa do EURESFO 2026 dá particular destaque à liderança e à inovação das cidades de pequena e média dimensão – uma escolha temática que tem relevância direta para o tecido urbano português, composto maioritariamente por municípios de escala média e pequena, muito diferentes das grandes metrópoles europeias que dominam frequentemente o debate sobre cidades sustentáveis. A proximidade às populações e a capacidade destas cidades para desenvolver estratégias de base local são apresentadas pelos organizadores como uma vantagem estrutural, não como uma limitação – uma mensagem que pode ser particularmente útil para as autarquias portuguesas que, sem os orçamentos de Paris, Amesterdão ou Copenhaga, procuram caminhos próprios para a resiliência climática.

Para o GreenOcean e para os seus leitores, o EURESFO 2026 em Guimarães é também um lembrete oportuno: a adaptação climática deixou de ser um tema de debate abstrato sobre o futuro para se tornar uma disciplina de governação local concreta, com financiamento dedicado, comunidades de prática estruturadas e, agora, um palco europeu instalado em solo português. Nos próximos dias, à medida que as conclusões do fórum forem divulgadas, valerá a pena seguir de perto o que sai de Guimarães – porque aquilo que aí se discute sobre incêndios, calor extremo, financiamento e justiça climática vai, muito provavelmente, moldar a forma como as autarquias de todo o país se preparam para os verões que aí vêm.

Fonte: ICLEI Europe / Agência Europeia do Ambiente / Comissão Europeia / Município de Guimarães / BragaTV / CINEA

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